05/05/2009

Entre a tela e o mar


Barco/Óleo s/tela (46x61)
Pedro Arunca 2009/05/05

04/05/2009

Chuva

Chuva, divina chuva
minha alma lava
meu corpo enxuga
Leva o frio
Traz o vento
Meu arrepio
Teu momento
O céu cumpriu
Ameaça cinzenta
Alguém tingiu
A água benta
Chuva, divina chuva
minha alma lava
meu corpo enxuga
Pelo ralo
Foge a folha
não me calo
Solto a rolha
O rio imundo
no mar rebenta
Esconde o fundo
Maré barrenta
Chuva, divina chuva
minha alma lava
meu corpo enxuga

27/04/2009

Tourada


Tourada/Pintura a óleo (50x70)
Pedro Arunca 2009/04/27
Obs.: já tem dono
Posted by Picasa

21/04/2009

Mais tela do que mar

É por estas e por outras que me ausento (das palavras e das pessoas).









08/04/2009

Ver ao perto

No rosto apagado
ergue-se, aceso, um cigarro
O fumo dá contorno às palavras
que se dissipam
ninguém as ouve,
ninguém as lê
Olhar fixo no horizonte
onde nada acontece
Histórias comuns
de ontem e de amanhã
Há passado e futuro
quando a Terra gira
Acorda gente
Acorda mundo
Deixar de fumar
Treinar o gesto
Usar lentes de ver ao perto
Deixar aproximar
Aqui, tudo mudará

04/03/2009

A fuga dos peixes

Nevoeiro no mar profundo
Um anzol prende o mundo
De inocentes predadores
a incautos pescadores
com redes de malha fina
rapamos o chão da mina
Já não molhamos os pés
no confronto das marés
os peixes entenderam
e não desobaram
abalaram sem rasto
escolheram um astro
A Lua perseguidora
já não é enganadora
O Sol mudou de turno
nosso sono é diurno.
____________________
Pedro Arunca (poema e imagem)

03/03/2009

Nas tintas


Barcos/Virgílio Sousa/Março 2009


Não pisem as papoilas/Pedro Arunca/Março 2009

Este foi o resultado dum encontro de amigos para a minha iniciação nas tintas.
O Gigi foi ao mar e eu fiquei em terra.
Ontem foi um dia diferente. Ele levou um robalo e eu vim de lá com uma salema.
Obrigado amigo, pela tua disponibilidade e incentivo. O próximo vai para ti.

03/02/2009

Pintado de fresco


Pintura a óleo de Virgílio Sousa (2009/Fevereiro)

No teu solo branco e nu
podia escolher o fundo
deitar palavras
ancorar o mar
fixar estrelas
pintar gente
colar coisas
pegar fogo
deixar pó
desenhar o mundo

No teu fundo vago e tosco
podia simplesmente
falar do horizonte
amarrar a vaga
criar o espaço
moldar o ser
colocar cor
ver arder
ser grão
tornar diferente


_________
Pedro Arunca
2009/02/03


Ao meu amigo Gigi, com um abraço. Obrigado pelo quadro (e jantar). Prepara-te para a minha Freijoada de Gambas.

30/01/2009

Janeiro

Janeiro friorento
manda chuva
manda vento
Congela o momento
do calor dum beijo

Lareira quente
pede lenha
pede gente
Conforta a quem sente
o lume no peito

Inverno de chama
dá terra
dá lama
Aquece a quem ama
o centro do leito

Serra nevada
quer tudo
quer nada
Esconde a madrugada
o sonho perfeito

Noite gelada
tem arrepio
tem geada
Apetece almofada
a quem nutre desejo
#9

14/01/2009

Contraventos

Branca memória de cava consciência
Oferta de intenções e gestos
Impossíveis contratos de bondade
Brilham gentilezas isentas de emoção
Treinam-se sorrisos magros
Falha o aperto de mão
Um olho não basta ou ser-se iluminado
Quem fala não escuta
Traduzam o sofisma viral
Inocente discurso estéril desculpado
Certificada balança infiel
A quem confiar a carta para Deus?
Promessas vãs
Sonhos do meu Universo

#8

18/12/2008

À beira dum poema

As mãos secam
se os dedos mirrarem
Expontâneas heras,
bebem de outras mãos 
O pinheiro sedento
leva raízes até onde deixarem
O calor, que refaz o corpo
é química sem explicação
Num permeável instante
o momento infiltra-se na pele
e o tempo deixa de contar
O silêncio percorre o gesto
e a palavra divaga no olhar
O rio, as gaivotas e a cidade
pousam no fundo da retina
e pintam um novo tecto 
com tintas por inventar
Encontro de versos 
numa estrada de afectos
à beira dum poema

15/12/2008

Noites claras

Onde o Sol queima e cega
Dispo-me e fixo a Lua
Das sombras interpreto os gestos
Faço do grito alheio o meu silêncio
Calo a voz, defendo a canção
Dias de horas confusas
Desejadas noites de sonhos claros
Incoerente sobreposição
Rosto de impensáveis lugares
Repetidos passos, mesmas pedras da rua
Devagar, ignoro o que me espera
Buracos são vazios do tempo
Esqueci palavras, jamais o olhar
Duvido da minha presença
Estranho tua figura

06/12/2008

perto de ti, ...meu mar

Minha guerra é a tua
num palco diferente
feridas do mesmo lado
lutar e sofrer diáriamente
A meio caminho conquistado
por caminho divergente
questionar a mesma Lua
pela maré descontente
Só o dia conhece bem
como se faz cada hora
partilha-se com os deuses
o que não se vê por fora
Querer viver mais vezes
onde o sonho nos levar
viajar muito, e além,
deste sistema solar
Enquanto o Sol aquecer
e a Terra puder rodar
o meu lugar é este
perto de ti,…meu mar

03/12/2008

Encontro de gente com palavras



Ao encontro das palavras
nas páginas dum café
Um livro cheio de gente
em conversas de maré

Na pausa dum cigarro
um pouco mais de mim
Poetas de pés de barro
Num lago com jardim

Apresentações sucintas
Na poesia que sobeja
prosa de letras distintas
Mais um gole de cerveja
 
Quarenta prisioneiros
Amarrados a um cordel
Registo de versos inteiros
momentos feitos de mel

São veias descarnadas
de caudal transbordante
linhas ensanguentadas
com coração a montante

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
Dedicado à minha amiga Paula Raposo a propósito dos dois livros editados há dias: " 22 olhares sobre 12 palavras" e "Golpe de Asa". Mais informação
clicaqui 

29/11/2008

O presépio

Longe vão os Dezembros… Num desafio de corrida, eu e os “meus amigos”, apetrechados com sachos e velhas facas rombas nos sacos, percorríamos os olivais até às matas à procura do melhor musgo (alto, viçoso, compacto e fofo) para o presépio. Havia entusiasmo e euforia logo nas primeiras combinações e, ainda mais, no passeio. Pelos carreiros e “caminhos de cabras”, partíamos determinados à descoberta dos melhores locais do nosso tesouro verde que, com mais olhos do que o espaço em casa, sempre nos sobrava.
O pinheiro, já cortado, tivera outros heróis. Alguém “mais velho” comandara a trupe por atalhos menos frequentados. Havia que ter cuidado e não sermos apanhados pelo dono ou alguém de guarda ao pinhal. Cada um escolhia o pinheiro do seu agrado e, pela socapa, a serrote e machado era cortado e levado de arrasto pelo tronco.
Bugalhos e bolas de papel embrulhados, em “pratas” coloridas - dos chocolates e dos maços de cigarros –, guardadas ao longo do ano dentro de livros, faziam parte da decoração do pinheiro de Natal. O seu efeito, embora de luz e cores menos vistosos, era para nós tão luminoso e igualmente mágico, como as lâmpadas e “bolas” de enfeitar, vendidas nas lojas e centros comerciais. Mais valor e brilho tinha o orgulho de as termos feito.
Num canto do chão da sala; sobre um tampo de madeira, platex ou cartão; sob o pinheiro, erguia-se o majestoso cenário. O improviso e imaginação projectavam montes, lagos espelhados e vales. Construíamos o estábulo com paus, cacos, caruma, palha e… sei lá que mais. As figuras tradicionais, pintadas sobre o barro cozido, tinham formas e cores dignas e colocadas nos seus lugares com papéis bem definidos. A neve de algodão; a água de espelhos; figurantes de cartão; bonecos de outra nação.
Uma estrela dourada orientava os Reis Magos ao seu destino, no trajecto que queríamos. Quando chegasse o momento, eles apareceriam e cada dia mais próximos do Menino. De terra e areia se faziam os caminhos. Aquele pedaço de chão verdejante era o Mundo, era Belém. Aquelas figuras de cartão e barro eram o Mundo, eram alguém.
O Menino cresceu e nós também. Alguém viu uma estrela? Onde estarão os Reis Magos? Dezembro está a chegar. Outros caminhos fazem o Mundo. Este pedaço azul é o Presépio. O Homem é quem?

18/11/2008

Dança sem regresso

roda teus braços em arcos paralelos
e alternados movimentos circulares
e faz teu corpo gingar
num lento e sensual vai-e-vem
e balança, como barco num agitado cais
recolhe-te ao beijo da terra
e estende teu véu
esboça um botão de rosa
com tuas mãos em prece
e inclina teu busto
cesta de generosos frutos
esperado momento
e minha dança vai começar
em gestos, de movimentadas sombras,
que avançam e hesitam como labaredas,
chamas e fogo vivo
para me acender do teu olhar
e queimar no teu rosto
e derreter em ardentes lábios
meu corpo treme em arpejos
meus dedos deslizam ao teu redor
num magnético e quente halo
tocam cordas imaginárias como se fosses harpa
e ajoelho-me sobre ti,
as minhas mãos despertam
notas baixas dum piano de emoções
citaras e tambores ocupam os meus sentidos
e tudo se move à nossa volta
e acontecem tempestades de sons
e explodem estrelas de todas as cores
e o chão afundou-se numa espiral
e não tenho onde regressar