01/11/2008

Automatemático










Decomponho-me em fracções
Para me achar nas divisões
Quanto mais me divido
Mais complicado fico

Subtraio a raíz aos problemas
Multiplico as explicações
Busco os meus teoremas
Nas dúvidas e nas paixões

Elevo os sonhos acumulados
Sem limites de potência
Procuro ter todos os dados
Aplico o factor paciência

31/10/2008

Nos meus elementos

Quero ser chuva
e percorrer teus íntimos regatos
e ser orvalho nos teus lábios

Quero ser terra

e ter o desenho dos teus passos
e ser cama nos teus cansaços

Quero ser fogo
e devorar-te numa chama lenta
e morrer nas tuas cinzas

Quero ser vento
e perder-me nos teus cabelos
e renascer nos teus braços

21/10/2008

A noite sendo













O dia muda de tom sem que eu nada, por mim, faça

os pássaros apressados em debandada, por cima dos telhados,
levam com eles os restos da cidade e do sol
pouca gente na rua e a que passa diminui
Correm mais os menos carros; os que abrandam e param
juntam-se aos demais a disputar o encosto do passeio;
mais deles, que dos passos
Fecham-se algumas janelas e caem, sobre elas, os estores.
Para fora, assunto encerrado.
Cá dentro, no meu convento, escrita adiada.
A noite devolve-me a dimensão das minhas inquietações...

18/10/2008

Codornizes com castanhas

Ingredientes (4p):
Codornizes: 12
Castanhas: 800 g
Bacon: 10 fatias
Pikles: 1 frasco peq.
Cerveja preta: 2 (x33cl)
Cenouras: .....2 médias
Cebolas:....... 3 "
Alhos:.......... 3 dentes médios
Tomilho:....... 2 colheres de chá
Margarina ou banha de porco: q.b.
Sal:.............. q.b.
Pimenta:....... q.b.
Preparos:
Fazer marinada com: cervejas, sal, os alhos moídos, pimenta e tomilho.
Mergulhar as codornizes na marinada, uma a uma, calcando-as bem de modo a "absorverem" o "molho". Devem nadar de 6 a 12 horas.
Mãos à obra:
Cortar as cebolas e as cenouras em rodelas finas.
Untar o tabuleiro com margarina ou banha (ou 50/50). Colocar as rodelas de cebola e de cenoura de modo a taparem o fundo e, por cima dispor as fatias de bacon.
Juntar as codornizes, abertas para cima, intercalando os pikles. Cobrir com as castanhas e regar com parte do "molho" da marinada. Levar ao forno (+180º), cerca de 1 hora e vigiar o molho e a assadura, com regas pontuais, utilizando o resto da marinada.
Escolha um bom vinho tinto e......... bom apetite.

16/10/2008

Livro de cabeceira

Alguém que te tangente
partirá numa aventura
dentro dessa capa dura
está o Sol em fase carente

Desfolhe com doçura
páginas de tinta recente
minha escrita complacente
com acentos de amargura

Não páres num resumo
nem nas notas de rodapé
no teu livro de maré
sublinhei frases de rumo

Noites brancas com café
dias negros à luz do fumo
tuas linhas foram meu prumo
deixei de escrever sem pé

Vê quem deitas à cabeceira
para te ler nas folhas nuas
se não te conhece as luas
vão dormir a noite inteira

14/10/2008

Foge

Foge
Força a chave
Fecha a porta por dentro
Fica deitada no teu canto a pensar
Faz de conta que lá fora faz mau tempo
Folheia mais uma vez esse "grande" livro de pó
Finge que te preocupas com todos e ninguém contigo
Fala do quanto lamentas as lágrimas que deixaste escapar
Ferve a água para o chá
de cidreira que te acalma
Fantasia mais e solta os desejos reprimidos
Ferida que mexes continua doendo
Fixa essas rugas precoces
Fecha a porta por fora
Falta amanhã
Foge

12/10/2008

Nunca te disse adeus

Não houve um adeus,
simplesmente, nunca parti
Para além do desejo,
resisto à crueldade do tempo
Vivo suspenso num beijo
Refaço-me, inteiro,
dos destroços que nunca abandonei
Teimoso mar de melancolia
Explicável vontade, repleta de sentidos,
justifica palavras e memórias intactas
capazes de te adivinharem na noite mais escura
Se a saudade corrói, tenho salitre na alma

Desanimados

03/10/2008

Hipotódromo da má língua

contributos para um hipotético acordo ortopédico da língua


Atmosfera: animal que polui o ar que respiramos
Arroto: o buraco na camada de ozono
Botão: urna de voto no Porto
Carrocel: mais conhecido por ramona
Engalinhar: optar por engenharia
Engraxar: dar graxa ao engenheiro
Esquerdista: o que se afasta mais à direita
Gangsterismo: psiconeurose relativa a gangas
Gerico: o que o pobre diz ao médico antes de passar receita
Genética: o que devíamos passar aos nossos filhos
Homérico: o que devia pagar a crise
Janotice: facto conhecido
N€urastenia: irritação provocada pela falta de euros
Paralelo: que se destina a indivíduo de etnia cigana
Petalismo: sistema que preconiza a mentira
Socioeconómico: parceiro que faz pouca despesa
Terracota: antiga localidade
Tortilha: ilha torta
xico: António Francisco
Transparente: transporte de família

02/10/2008

Fragilidades

O meu computador deve comer muito queijo porque, volta-e-meia e sem avisador, esquece o rato. Se vivesse apertado até o compreenderia - seria do calor - mas não tem falta espaço. Vive em banda larga. Não é asfixia.
Gostava saber e explicar a razão desta anomalia. Duma coisa estou certo: não é da energia que consome, embora mais cara, de toda a UE, não passa fome. Tenho alternativa? Será problema do cursor que vive, todo o ano a poemas e mágoa, pendurado no monitor de écran plano?

Os meus amigos entendidos nestas matérias dão palpites, porque andam ocupados, ou não atendem, porque ainda estão de férias. Não sendo barra em informática, sequer coisa alguma, pela lógica da matemática deduzo, das duas uma: ou é do hardware ou é do software. Nunca do operador!

Passaram três anos, é natural um certo desgaste mas não é assim tão velho que já mereça reforma. Não vou em cantigas e não o carrego com muita treta. Não o tenho de dieta mas abuso da Internet. Num momento, está bem; noutro, pego no rato e o cursor, feito jumento, não obedece. Por mais que faça ele não mexe. Se julga que é gente, está bem enganado, não vai a murro acaba desligado. Casmurro, tento um recurso, desligo-lhe o cabo - não preciso de curso em USB -, e, sem mais nem porquê, assim que o ligo, funciona. Problema de mona a afectar a memória local ou algum dano, de ataque Trojan, contra o sistema do Tio Sam. Quem sabe, talvez uma virose infiltrada no Spam do marketing global . Assim se vê a fragilidade do meu PC!

28/09/2008

Há dias assim

Toda a noite, o vento bateu forte na janela do meu quarto, insistoso, lutou raivoso com vontade de a arrancar. Embora preguiçoso, vi no relógio luminoso que era demasiado cedo para me levantar. Por vezes acalmava e, aí, eu voltava a adormecer.

De repente, um trovão fez o meu coração saltar. Acordei assustado. Decidido a pôr um fim aquele tormento, resigno-me sair da cama nesse momento. Esfrego os olhos remelados, ponho um pé no chão e, ainda os dois não estavam colados, sinto o tapete fugir. De braços esticados, agarrei-me ao candeeiro. Eu caio primeiro; ele, certeiro atinge-me na cabeça e fica aceso. Possesso com tal confusão, apoio uma mão na parede e outra na mesinha de cabeceira para me endireitar. O que aconteceu não sei explicar, fomos os dois ao soalho e no meio dum palavrão ouço o rádio tocar. Não fosse a dor na testa e, de novo, aquele (!) barulho dos estores, diria estar a acordar dum pesadelo dos piores. Levo as mãos ao cabelo e dois dedos mais atentos descobrem um galo (?!). “Era só o que me faltava”, pensei.

Inseguramente, fiquei mais de cinco minutos estendido, dorido e zamboado, meio dormente. Contrariado, fui de joelhos, ver-me ao espelho da casa de banho. O galo aumentara de tamanho. Com que cara vou hoje trabalhar? A custo, lá me lavei. Hesitei na camisa e mudei duas vezes de gravata, uma porque tinha um buraco e a nova uma nódoa. De fato cinzento a condizer com a minha pasta preta (e ocasião) pego nas chaves do carro e saio porta fora. Detesto o cheiro de cigarro no elevador. Saí no piso inferior e desço oito lanços de escadas. Para a garagem, não é meu hábito ir por ali; em vão procurei o botão da luz e catrapuz, bati com a cara num pilar e esmurrei o nariz. Falhei por um triz a minha viatura.

Depois desta aventura, acham que fui trabalhar? Contei metade da história, para abreviar. Ficou por dizer, desse dia sem memória, outras coisas por que passei: cortei-me com a lâmina de barbear; o carro esteve dois dias parado com as luzes ligadas, não funcionou; com falta de rede voltei a casa para avisar aos colegas, do meu atraso; subi dez lanços de noventa e tantos degraus (!).

Há dias maus? Molhado que nem um pinto já não sei o que sinto. Dos nervos e do cansaço também não sei o que faço. Uma coisa me corre bem: o suor, em bica, generoso onde cada poro contribui com mais de um pingo. De novo, com outro fato vestido, não me dou por vencido e faço a ligação, ouço uma gravação: “blá, blá…………os nossos serviços estão encerrados...blá, blá”. Com toda a calma do mundo (e arredores!!!), pouso o auscultador, subo os estores e vejo lá fora um dia de Verão e ligo o comando da televisão no canal habitual. A esta hora, desenhos animados? Alguma coisa deve estar mal. Após este meu triste relato, e para encher mais o prato do dia, uma má notícia: o Sporting perdeu com o Benfica. Bingo!!! Afinal, hoje é Domingo!!!

30/07/2008

Aprender a fazer nós

Viver no lamento
Mata a nossa alegria
Alivia o sofrimento
Ver o nascer do dia

Cada um com sua cruz
Qual delas a mais pesada
Se o tamanho não reduz
Encurtemos a caminhada

Quanto maior é o percurso
Mais custa carregar
Procurar outro curso
Talvez possa aliviar

A própria Natureza
Nos dá boas lições
A água das represas
Escapa nas evaporações

Ninguém se gabe de amar
Sem nunca ter sofrido
Há caír e levantar
E o saber aprendido

O amor não se reclama
Nem se sujeita a nada
Só damos pela chama
Com a pele já queimada

Muitas estrelas tem o céu
Cada um procura a sua
Há a quem baste o que é seu
E quem dispute a Lua

A vida é uma montanha
Onde não chegamos sós
Com uma corda não é façanha
Se dos erros fizermos nós

__________

Pedro Arunca
2008-07-30

29/07/2008

Minha caravela


A lápis e pincel
fiz o meu primeiro barco
Numa folha de papel
fui Dias, Gama e Zarco

Linha curva na horizontal
e dois arcos inclinados
uniam outra linha igual
em ângulos calculados

Havia uma enorme vela
e um sol imponente
Da minha caravela
partia um palmo de gente

No porão cabiam os sonhos
e outras mil invenções
Não levava monstros medonhos
nem outras inquietações

A cruz dos Descobrimentos
pelo mar azul imaginado
Erguia monumentos
em cada porto alcançado

Das minhas viagens
só me lembro das partidas
e de fazer as ancoragens
nas histórias muito lidas

Os piratas ficavam nos livros
fechados a sete chaves
Os primatas davam gritos
Assustadas, fugiam as aves

Naquele pedaço de papel
cheio de côr, céu e mar
cabia o mundo nele
havia espaço para sonhar

______________
Pedro Arunca
2008-07-29

07/07/2008

Pilita

Rija enquanto durou
Agora, amolengou
Antes que a cobra morda
Vou atá-la numa corda
Pra na me fugir
Preciso da sacudiri
Leva tempo pá acordari
Já nem se sabe esticar
Más lenta cum caracoli
Enrola-se no mê lençoli
Ninguém a tira dali
Deu em perguiçar
Nada a faz levantar
Já não dá com o monti
Nem bebe água na fonti
Que bicho lhe mordeu?
Parece defunta que morreu
Deu-lhe pra enjoari
Nem lhe apeteci cheirar
Na juventude fazia inveja
Tinha más gás cuma cerveja
Sempre pronta pra brincar
Cu diga a minha Maria
Era nôte e era dia
Até as mulheres lá da vila
Marcavam lugar na fila
Para eu lhas mostrar
Uma moira a trabalhari
Motivo do mê orgulho
Fazia cá um barulho
Entrava pelos quintais
Espantava os animais
Eram duas, três e quatro
Da cozinha até ao quarto
E até debaixo da cama
A bicha tinha fama
Punha todo num alvoroço
Desde mê tempo de moço
A idade na perdoa
Levara um vida boa
Depois de tanto caçari
Merece descansar
Já contava mê avô:
“nenhuma rata me escapou”
Está no sangui das gerações
Nada de confusões
Esta história aqui escrita
É a da minha gata Pilita
_________
Pedro Arunca
2008-07-07