02/10/2008

Fragilidades

O meu computador deve comer muito queijo porque, volta-e-meia e sem avisador, esquece o rato. Se vivesse apertado até o compreenderia - seria do calor - mas não tem falta espaço. Vive em banda larga. Não é asfixia.
Gostava saber e explicar a razão desta anomalia. Duma coisa estou certo: não é da energia que consome, embora mais cara, de toda a UE, não passa fome. Tenho alternativa? Será problema do cursor que vive, todo o ano a poemas e mágoa, pendurado no monitor de écran plano?

Os meus amigos entendidos nestas matérias dão palpites, porque andam ocupados, ou não atendem, porque ainda estão de férias. Não sendo barra em informática, sequer coisa alguma, pela lógica da matemática deduzo, das duas uma: ou é do hardware ou é do software. Nunca do operador!

Passaram três anos, é natural um certo desgaste mas não é assim tão velho que já mereça reforma. Não vou em cantigas e não o carrego com muita treta. Não o tenho de dieta mas abuso da Internet. Num momento, está bem; noutro, pego no rato e o cursor, feito jumento, não obedece. Por mais que faça ele não mexe. Se julga que é gente, está bem enganado, não vai a murro acaba desligado. Casmurro, tento um recurso, desligo-lhe o cabo - não preciso de curso em USB -, e, sem mais nem porquê, assim que o ligo, funciona. Problema de mona a afectar a memória local ou algum dano, de ataque Trojan, contra o sistema do Tio Sam. Quem sabe, talvez uma virose infiltrada no Spam do marketing global . Assim se vê a fragilidade do meu PC!

28/09/2008

Há dias assim

Toda a noite, o vento bateu forte na janela do meu quarto, insistoso, lutou raivoso com vontade de a arrancar. Embora preguiçoso, vi no relógio luminoso que era demasiado cedo para me levantar. Por vezes acalmava e, aí, eu voltava a adormecer.

De repente, um trovão fez o meu coração saltar. Acordei assustado. Decidido a pôr um fim aquele tormento, resigno-me sair da cama nesse momento. Esfrego os olhos remelados, ponho um pé no chão e, ainda os dois não estavam colados, sinto o tapete fugir. De braços esticados, agarrei-me ao candeeiro. Eu caio primeiro; ele, certeiro atinge-me na cabeça e fica aceso. Possesso com tal confusão, apoio uma mão na parede e outra na mesinha de cabeceira para me endireitar. O que aconteceu não sei explicar, fomos os dois ao soalho e no meio dum palavrão ouço o rádio tocar. Não fosse a dor na testa e, de novo, aquele (!) barulho dos estores, diria estar a acordar dum pesadelo dos piores. Levo as mãos ao cabelo e dois dedos mais atentos descobrem um galo (?!). “Era só o que me faltava”, pensei.

Inseguramente, fiquei mais de cinco minutos estendido, dorido e zamboado, meio dormente. Contrariado, fui de joelhos, ver-me ao espelho da casa de banho. O galo aumentara de tamanho. Com que cara vou hoje trabalhar? A custo, lá me lavei. Hesitei na camisa e mudei duas vezes de gravata, uma porque tinha um buraco e a nova uma nódoa. De fato cinzento a condizer com a minha pasta preta (e ocasião) pego nas chaves do carro e saio porta fora. Detesto o cheiro de cigarro no elevador. Saí no piso inferior e desço oito lanços de escadas. Para a garagem, não é meu hábito ir por ali; em vão procurei o botão da luz e catrapuz, bati com a cara num pilar e esmurrei o nariz. Falhei por um triz a minha viatura.

Depois desta aventura, acham que fui trabalhar? Contei metade da história, para abreviar. Ficou por dizer, desse dia sem memória, outras coisas por que passei: cortei-me com a lâmina de barbear; o carro esteve dois dias parado com as luzes ligadas, não funcionou; com falta de rede voltei a casa para avisar aos colegas, do meu atraso; subi dez lanços de noventa e tantos degraus (!).

Há dias maus? Molhado que nem um pinto já não sei o que sinto. Dos nervos e do cansaço também não sei o que faço. Uma coisa me corre bem: o suor, em bica, generoso onde cada poro contribui com mais de um pingo. De novo, com outro fato vestido, não me dou por vencido e faço a ligação, ouço uma gravação: “blá, blá…………os nossos serviços estão encerrados...blá, blá”. Com toda a calma do mundo (e arredores!!!), pouso o auscultador, subo os estores e vejo lá fora um dia de Verão e ligo o comando da televisão no canal habitual. A esta hora, desenhos animados? Alguma coisa deve estar mal. Após este meu triste relato, e para encher mais o prato do dia, uma má notícia: o Sporting perdeu com o Benfica. Bingo!!! Afinal, hoje é Domingo!!!

30/07/2008

Aprender a fazer nós

Viver no lamento
Mata a nossa alegria
Alivia o sofrimento
Ver o nascer do dia

Cada um com sua cruz
Qual delas a mais pesada
Se o tamanho não reduz
Encurtemos a caminhada

Quanto maior é o percurso
Mais custa carregar
Procurar outro curso
Talvez possa aliviar

A própria Natureza
Nos dá boas lições
A água das represas
Escapa nas evaporações

Ninguém se gabe de amar
Sem nunca ter sofrido
Há caír e levantar
E o saber aprendido

O amor não se reclama
Nem se sujeita a nada
Só damos pela chama
Com a pele já queimada

Muitas estrelas tem o céu
Cada um procura a sua
Há a quem baste o que é seu
E quem dispute a Lua

A vida é uma montanha
Onde não chegamos sós
Com uma corda não é façanha
Se dos erros fizermos nós

__________

Pedro Arunca
2008-07-30

29/07/2008

Minha caravela


A lápis e pincel
fiz o meu primeiro barco
Numa folha de papel
fui Dias, Gama e Zarco

Linha curva na horizontal
e dois arcos inclinados
uniam outra linha igual
em ângulos calculados

Havia uma enorme vela
e um sol imponente
Da minha caravela
partia um palmo de gente

No porão cabiam os sonhos
e outras mil invenções
Não levava monstros medonhos
nem outras inquietações

A cruz dos Descobrimentos
pelo mar azul imaginado
Erguia monumentos
em cada porto alcançado

Das minhas viagens
só me lembro das partidas
e de fazer as ancoragens
nas histórias muito lidas

Os piratas ficavam nos livros
fechados a sete chaves
Os primatas davam gritos
Assustadas, fugiam as aves

Naquele pedaço de papel
cheio de côr, céu e mar
cabia o mundo nele
havia espaço para sonhar

______________
Pedro Arunca
2008-07-29

07/07/2008

Pilita

Rija enquanto durou
Agora, amolengou
Antes que a cobra morda
Vou atá-la numa corda
Pra na me fugir
Preciso da sacudiri
Leva tempo pá acordari
Já nem se sabe esticar
Más lenta cum caracoli
Enrola-se no mê lençoli
Ninguém a tira dali
Deu em perguiçar
Nada a faz levantar
Já não dá com o monti
Nem bebe água na fonti
Que bicho lhe mordeu?
Parece defunta que morreu
Deu-lhe pra enjoari
Nem lhe apeteci cheirar
Na juventude fazia inveja
Tinha más gás cuma cerveja
Sempre pronta pra brincar
Cu diga a minha Maria
Era nôte e era dia
Até as mulheres lá da vila
Marcavam lugar na fila
Para eu lhas mostrar
Uma moira a trabalhari
Motivo do mê orgulho
Fazia cá um barulho
Entrava pelos quintais
Espantava os animais
Eram duas, três e quatro
Da cozinha até ao quarto
E até debaixo da cama
A bicha tinha fama
Punha todo num alvoroço
Desde mê tempo de moço
A idade na perdoa
Levara um vida boa
Depois de tanto caçari
Merece descansar
Já contava mê avô:
“nenhuma rata me escapou”
Está no sangui das gerações
Nada de confusões
Esta história aqui escrita
É a da minha gata Pilita
_________
Pedro Arunca
2008-07-07

01/06/2008

A terra por cumprir

Homens nunca dantes governados
Soldados em guerras de água e sal
Marinheiros a custo forjados
Carregaram bandeira ocidental
Estranhos mapas revelados
Para muitos a viagem fatal
Novos impérios e desertos de fé
Brilho dourado e aromas de café


Mares de sonhos passados
Agulha louca de barco triste
Destinos para sempre cruzados
Imponente mastro que resiste
Lua furtiva em céu sem estrelas
Assobio do vento nas rotas velas
Ainda jorra sangue das veias
Há mais castelos nas areias


Terra firme de gente insegura
Velho porto de abrigo sem mar
Chama viva que perdura
Outros mundos por desenhar
Amolecer a côdea dura
Num hino por inventar
O horizonte não está perdido
Há futuro no desconhecido
_______
Pedro Arunca
2008-06-01

15/05/2008

Pequeno acidente de viação

Pela estrada de alcatrão,
vai um grande camião,
carregado com carvão
e, na sua direcção,
uma carroça em contra-mão.
Mas que grande confusão.
Um apita, o outro não.
Dá-se uma grande colisão.
Sem qualquer explicação
Juntou-se a multidão
que ficou sem reacção.
O motorista, vermelhão,
deu uma justificação:
- Alguém me deu um empurrão
e os meus pés não chegam ao chão.
O polícia, espertalhão,
fez-lhe o teste do balão e
chegou à seguinte conclusão:
- O culpado é este anão!
Os burros não se multam nem têm prisão.
Nisto, chega uma senhora de roupão:
- Sabes que horas são?
Arruma já os peluches do teu irmão
e veste o pijama azulão!
Quem é que fez mal ao cão?
- Eu não! Eu não!
Onde está o João?
- Mãe, sonhei que era policia. Acordei com um barulhão.
Vi bonecos a correr, numa grande aflição.
Assumi a minha posição
e fiz uma grande investigação. Imagine a situação:
o Bobi, amarrado ao triciclo, com um grande arranhão;
o mano - debaixo da cama - a queixar-se da mão,
foi apanhado a conduzir, sem carta de condução,
o andarilho sem travão.
Tomei uma decisão:
Chamei o 112 para o acidente de viação e libertei o cão...

25/04/2008

Em Abril sonhos mil

Manifesto peitoral
Contra a evolução dos cravas
Oportunismo é fatal
Queremos um estado novo
Onde contem com a malta:
mais pessoas e menos "povo"
Paz, pão e educação
Analfabetismo nunca mais
Vida aos filhos da Nação
Deixem-nos livres para pensar
Viva a nossa reacção
É preciso despertar
Derrubemos a burocracia
Ergamos uma nova bandeira
Calemos a hipocrisia
A Terra a quem a respeita
Nela só há uma verdade:
não tem esquerda nem direita
Abaixo o comodismo
A memória a quem esquece
Morte ao conformismo
O poder a quem merece!

Abril

Bocas em surdina,
semeavam ideias.
Na lavra dos homens
a razão, clandestina.
As prisões cheias,
campo de reféns.
A monte, sem eira.
Noite companheira.
Na sombra dos livros,
ocultos perigos.
O poder, de uniforme,
governava a fome.
Canções caladas.
Poemas de alerta.
Palavras vigiadas.
O sol era quadrado.
Calava-se o poeta.
O cerco apertado.
No ponto de mira,
o destino africano.
Cada bala no cano,
uma vida que tira.
Luto nos pelotões.
O sangue nas fardas:
medalhas manchadas.
Cartas negras. Lições.
Mas a fé não abala.
Na aldeia e na sanzala,
reza-se pela mudança.
A paz tem muitas cores.
Nos quartéis de esperança.
Soldados em marcha,
empunham flores.
Derrubam as barreiras
e mudam as bandeiras.
Podemos falar.

__________
Pedro Arunca
2007/04/25

29/03/2008

Nosso caminho

A vida é o caminho que cada um faz
Percorremo-lo, uma vez, sem marcha-atrás
Por vezes íngreme, plano e de combros
Corremos, paramos e damos nossos tombos
Deixamos marcas que nos somam os anos
Movem-nos poucas certezas e mais enganos
Fixamos rostos. Uns marcamos e outros não
Sorrisos e memórias que cabem numa canção
Não importa o quanto mais longe chegamos
Mas sim o que aprendemos e deixamos
A todo o momento pudemos fazer por mudar

Abraçar mais e aplicar o verbo amar
_______
Pedro Arunca

2008/03/29

08/03/2008

Mulher

Mulher, de hoje e de sempre
Forte árvore, frágil semente
Gera, ama, ri, sofre e sente
Sentimentos que desperta
Nossa única morada certa
Sem ela, Terra deserta:

sem calor seria a vida
sem razão seria o amor
sem ardor seria a ferida
sem emoção seria a dor

Defini-la numa palavra, é pouco
Não a achamos num grito rouco
Talvez lhe agrade um poema louco
Ver seu nome numa canção
Subir ao céu num balão
Um gesto da nossa gratidão
________
Pedro Arunca
2008-03-08

15/02/2008

Latejo

Crescente desejo
Horas que são tuas
Na boca o beijo
De antigas ruas

Nunca falar
Do que despertas
Escrever e calar
Páginas desertas

Adivinhasses
Nada negava
Chamasses
Estava

Rio parado
Diques recentes
Corpo deitado
Não sentes

Nas veias o amor
Inundado coração
Sangue e calor
Latejar de emoção
_________
Pedro Arunca
2008/02/14

14/02/2008

S Valentim

Catorze de Fevereiro
Dia dos namorados
Pior do que solteiro
é ficar nos encalhados
Bombons e chocolates
com raminhos de flores
Frases nos escaparates
resumem os amores
Berloques e bugigangas
eternas recordações
Mimos são missangas
no colar das paixões
Muitos dias tem o ano
esquecidos dos festejos
Vamos corrigir o dano
Declaremo-nos com beijos
Cada um é jardineiro
do seu próprio jardim
O Amor sempre primeiro
Viva S. Valentim
________
Pedro Arunca
2008-02-14