07/07/2008

Pilita

Rija enquanto durou
Agora, amolengou
Antes que a cobra morda
Vou atá-la numa corda
Pra na me fugir
Preciso da sacudiri
Leva tempo pá acordari
Já nem se sabe esticar
Más lenta cum caracoli
Enrola-se no mê lençoli
Ninguém a tira dali
Deu em perguiçar
Nada a faz levantar
Já não dá com o monti
Nem bebe água na fonti
Que bicho lhe mordeu?
Parece defunta que morreu
Deu-lhe pra enjoari
Nem lhe apeteci cheirar
Na juventude fazia inveja
Tinha más gás cuma cerveja
Sempre pronta pra brincar
Cu diga a minha Maria
Era nôte e era dia
Até as mulheres lá da vila
Marcavam lugar na fila
Para eu lhas mostrar
Uma moira a trabalhari
Motivo do mê orgulho
Fazia cá um barulho
Entrava pelos quintais
Espantava os animais
Eram duas, três e quatro
Da cozinha até ao quarto
E até debaixo da cama
A bicha tinha fama
Punha todo num alvoroço
Desde mê tempo de moço
A idade na perdoa
Levara um vida boa
Depois de tanto caçari
Merece descansar
Já contava mê avô:
“nenhuma rata me escapou”
Está no sangui das gerações
Nada de confusões
Esta história aqui escrita
É a da minha gata Pilita
_________
Pedro Arunca
2008-07-07

01/06/2008

A terra por cumprir

Homens nunca dantes governados
Soldados em guerras de água e sal
Marinheiros a custo forjados
Carregaram bandeira ocidental
Estranhos mapas revelados
Para muitos a viagem fatal
Novos impérios e desertos de fé
Brilho dourado e aromas de café


Mares de sonhos passados
Agulha louca de barco triste
Destinos para sempre cruzados
Imponente mastro que resiste
Lua furtiva em céu sem estrelas
Assobio do vento nas rotas velas
Ainda jorra sangue das veias
Há mais castelos nas areias


Terra firme de gente insegura
Velho porto de abrigo sem mar
Chama viva que perdura
Outros mundos por desenhar
Amolecer a côdea dura
Num hino por inventar
O horizonte não está perdido
Há futuro no desconhecido
_______
Pedro Arunca
2008-06-01

15/05/2008

Pequeno acidente de viação

Pela estrada de alcatrão,
vai um grande camião,
carregado com carvão
e, na sua direcção,
uma carroça em contra-mão.
Mas que grande confusão.
Um apita, o outro não.
Dá-se uma grande colisão.
Sem qualquer explicação
Juntou-se a multidão
que ficou sem reacção.
O motorista, vermelhão,
deu uma justificação:
- Alguém me deu um empurrão
e os meus pés não chegam ao chão.
O polícia, espertalhão,
fez-lhe o teste do balão e
chegou à seguinte conclusão:
- O culpado é este anão!
Os burros não se multam nem têm prisão.
Nisto, chega uma senhora de roupão:
- Sabes que horas são?
Arruma já os peluches do teu irmão
e veste o pijama azulão!
Quem é que fez mal ao cão?
- Eu não! Eu não!
Onde está o João?
- Mãe, sonhei que era policia. Acordei com um barulhão.
Vi bonecos a correr, numa grande aflição.
Assumi a minha posição
e fiz uma grande investigação. Imagine a situação:
o Bobi, amarrado ao triciclo, com um grande arranhão;
o mano - debaixo da cama - a queixar-se da mão,
foi apanhado a conduzir, sem carta de condução,
o andarilho sem travão.
Tomei uma decisão:
Chamei o 112 para o acidente de viação e libertei o cão...

25/04/2008

Em Abril sonhos mil

Manifesto peitoral
Contra a evolução dos cravas
Oportunismo é fatal
Queremos um estado novo
Onde contem com a malta:
mais pessoas e menos "povo"
Paz, pão e educação
Analfabetismo nunca mais
Vida aos filhos da Nação
Deixem-nos livres para pensar
Viva a nossa reacção
É preciso despertar
Derrubemos a burocracia
Ergamos uma nova bandeira
Calemos a hipocrisia
A Terra a quem a respeita
Nela só há uma verdade:
não tem esquerda nem direita
Abaixo o comodismo
A memória a quem esquece
Morte ao conformismo
O poder a quem merece!

Abril

Bocas em surdina,
semeavam ideias.
Na lavra dos homens
a razão, clandestina.
As prisões cheias,
campo de reféns.
A monte, sem eira.
Noite companheira.
Na sombra dos livros,
ocultos perigos.
O poder, de uniforme,
governava a fome.
Canções caladas.
Poemas de alerta.
Palavras vigiadas.
O sol era quadrado.
Calava-se o poeta.
O cerco apertado.
No ponto de mira,
o destino africano.
Cada bala no cano,
uma vida que tira.
Luto nos pelotões.
O sangue nas fardas:
medalhas manchadas.
Cartas negras. Lições.
Mas a fé não abala.
Na aldeia e na sanzala,
reza-se pela mudança.
A paz tem muitas cores.
Nos quartéis de esperança.
Soldados em marcha,
empunham flores.
Derrubam as barreiras
e mudam as bandeiras.
Podemos falar.

__________
Pedro Arunca
2007/04/25

29/03/2008

Nosso caminho

A vida é o caminho que cada um faz
Percorremo-lo, uma vez, sem marcha-atrás
Por vezes íngreme, plano e de combros
Corremos, paramos e damos nossos tombos
Deixamos marcas que nos somam os anos
Movem-nos poucas certezas e mais enganos
Fixamos rostos. Uns marcamos e outros não
Sorrisos e memórias que cabem numa canção
Não importa o quanto mais longe chegamos
Mas sim o que aprendemos e deixamos
A todo o momento pudemos fazer por mudar

Abraçar mais e aplicar o verbo amar
_______
Pedro Arunca

2008/03/29

08/03/2008

Mulher

Mulher, de hoje e de sempre
Forte árvore, frágil semente
Gera, ama, ri, sofre e sente
Sentimentos que desperta
Nossa única morada certa
Sem ela, Terra deserta:

sem calor seria a vida
sem razão seria o amor
sem ardor seria a ferida
sem emoção seria a dor

Defini-la numa palavra, é pouco
Não a achamos num grito rouco
Talvez lhe agrade um poema louco
Ver seu nome numa canção
Subir ao céu num balão
Um gesto da nossa gratidão
________
Pedro Arunca
2008-03-08

15/02/2008

Latejo

Crescente desejo
Horas que são tuas
Na boca o beijo
De antigas ruas

Nunca falar
Do que despertas
Escrever e calar
Páginas desertas

Adivinhasses
Nada negava
Chamasses
Estava

Rio parado
Diques recentes
Corpo deitado
Não sentes

Nas veias o amor
Inundado coração
Sangue e calor
Latejar de emoção
_________
Pedro Arunca
2008/02/14

14/02/2008

S Valentim

Catorze de Fevereiro
Dia dos namorados
Pior do que solteiro
é ficar nos encalhados
Bombons e chocolates
com raminhos de flores
Frases nos escaparates
resumem os amores
Berloques e bugigangas
eternas recordações
Mimos são missangas
no colar das paixões
Muitos dias tem o ano
esquecidos dos festejos
Vamos corrigir o dano
Declaremo-nos com beijos
Cada um é jardineiro
do seu próprio jardim
O Amor sempre primeiro
Viva S. Valentim
________
Pedro Arunca
2008-02-14

13/02/2008

Os especialistas

São analistas e até consultores
Uns engenheiros, alguns doutores
Falam dos males e avisam os perigos
Vivem de avales mas acusam amigos
Falam de tudo, das coisas e de todos
Debitam palavras e sentenças a rodos
Discursam horas a fio, sem pausas
Descobrem a origem de todas as causas
Semeiam frases e ditos de outra lavra
Eruditos na dicção, na pose e na palavra
Falam da política, religião e de ciência
Só lhes falta um pouco de paciência
Há caminhos de pedras, marcados
e verdes de musgo, ignorados
Não pisaram a lama dos carreiros
Dos homens, dos bois e dos carneiros
Ressuscitam os mortos e enterram os vivos
Refugiam-se, fechados, em pilhas de livros
Comem fatias de pão descôdeado
Temperam tudo com sal refinado
Escrevem em todos os jornais
Só eles têm tempo para mais
Com tanta lucidez e tanto preceito
Não há quem ponha isto direito!
Tudo o que espirram tem nexo
Têm opinião, mas praticam sexo?
_________
Pedro Arunca
2008-02-13

09/02/2008

J' adore

A Ana, desafiou-me a enumerar e escrever sobre 6 coisas que eu adoro. Fiz a minha check-list. Escusado será pedirem-me para escrever sobre aquilo de que eu mais adoro (reservo algumas no segredo dos meus neurónios), mas não vou mentir sobre estas:

1 - Banho de imersão às escuras, com boa música a preencher os intervalos do "chap-chap".
2 - Ilhas e praias pouco frequentadas. Nalgumas horas do dia ou a qualquer hora da noite.

3 - Comer bem e beber melhor, na companhia dos amigos. Misturas: só as evito nas bebidas.
4 - Ler um livro ou ver um filme que me desperte mais alegria, reforce o gosto pela vida e pelas pessoas e desafie a minha imaginação.
5 - Sexo: calado, murmurado, falado e escrito; sem hora e lugar marcado, mas sempre acompanhado. Tenho um postura, nem sempre firme, porque entendo que cada um defenda a sua posição. Não esqueçamos que todas as posições têm as suas virtudes e o seu ponto de vista. Precisamos de ter e mente e o corpo abertos à imaginação e à criatividade. Cada qual com os seus argumentos. Ou há sexocracia ou ninguém come. Existem muitas formas de ter sussexo na vida. Dura lex non latex.
6 - Rir. O riso não tem que morar longe do siso. Podem e devem partilhar a mesma cabeça, cuja sentença deve ser coerente e verdadeira com o espírito da coisa e do coiso ( porque não?).

Como começa a ser meu costume, não nomeio a passagem do testemunho. Quem sentir que tem algo a dizer e se queira atrever a pegar-lhe, faça o favor. Um pedido lhe deixo: deixe aqui essa intenção para eu e outros passarmos por lá. Pense, abra-se e dê-se. Dar não é perder.

28/01/2008

Poema alentejano

Andava passeando
encontréi o mê amori
Pus-me estressando
Tal era o mê calori
Tropecei num caracóli
Fui c'as bentas ao chão
Estendido ali ao sóli
Pedi logo a sua mão
A moça tod'encarnada
disse qu´eu era louco
dê-me uma estalada
e disse qu'era pouco
Mas a cousa piorou
quando ma declarei
Disse-lhe tudo o que sou
e ali mesmo m' atirei
Home de poucas letras
mostrei minhas virtudes
Na me fio cá em tretas
Assumi as atitudes
Levei mais um murro
vi mas de mil estrelas
Mais esperto é mê burro
que sabe escolhe-las
na se mete nas encrecas
e está sempre a comer
Más tardi cand'acordei
ca barriga a dar horas
lá m'alevantei
dorido e com demoras
Nã sê se foi do tinto
ou talvez das chouriças
Fora compadre Jacinto
que m'arreara nas bêças
_______
Pedro Arunca
2008/01/28

23/01/2008

Há mulheres...

... charmosas, radiantes e até perfumadas;
... tímidas, furtivas e até ousadas;
... frágeis, atrevidas e até magoadas;
... corajosas, impulsivas e até apagadas;
... ambiciosas, dinâmicas e até realizadas;
... decididas, sensíveis e até desesperadas;
... cultas, atentas e até abandonadas;
... modelo, sexy e até ignoradas;
... comuns, discretas e até amadas;
... filhas, mães e até educadas;
... felizes, solteiras e até casadas;
... faladoras, de burca e até caladas;
... vaidosas, convencidas e até adoradas;
... de ninguém, viúvas e até desejadas;
... negras, claras e até pintadas;
... famintas, satisfeitas e até conformadas;
... honestas, fiéis e até enganadas;
... virgens, prostitutas e até frustradas;
... sortudas, ricas e até azaradas;
... livres, trabalhadoras e até ocupadas;
... submissas, autoritárias e até mandadas;
... doentes, drogadas e até recuperadas;
... polícia, presas e até vigiadas;
...-a-dias, noctívagas e até contratadas;
... palhaço, artistas e até choradas;
... soldado, poetisas e até acantonadas;
... serenas, activas e até revoltadas
... cantoras, desconhecidas até cantadas;
... santas, mártir e até endeusadas;
... bruxas, crentes e até enfeitiçadas;
... históricas, dramáticas e até injustiçadas
... tristes, alegres e até apaixonadas;
... esposas, amantes e até enamoradas…

_______
Pedro Arunca
2008/01/23

21/01/2008


Segunda-feira

Abrir os olhos no escuro
Consentir uns minutos
ao calor dos lençóis
Um duche apressado
Fica o espelho embaciado

Ver o tempo na janela
e os minutos contados
Vestir a pele do dia
para voltar à corrida
na maratona da vida

O café da manhã
mexido com sono
Tomar com coragem
as notícias dos jornais
São amargas demais

Rotina de cumprimentos
Nos rostos de sempre
caras de poucos amigos
O relógio fica lento
Ao salário sobra tempo

_______
Pedro Arunca
2008/01/21

12/01/2008

Hoje vou sair


Hoje não é um dia especial, sequer um dia diferente
Um dia normal, como para muita gente.
Não te telefono nem mando mensagens
Fico no meu canto. Talvez leia um livro ou escreva uns versos.

Hoje não ligo para ninguém!

Falámos há dois anos, era Natal. Muito tempo para quem não esquece.

São longos os dias de Inverno. Só a esperança me aquece.
Devo ter paciência de santo para esperar por ti, sem qualquer sinal.

Também as árvores o fazem com as aves que partiram e a Primavera ainda vem longe.

Hoje não ligo para ninguém!

Não resisto à tentação de abrir o álbum de fotos que restou.

Um sentimento estranho apodera-se de mim.
Estou diferente mas algo, que não vejo, permanece.
Aquela t-shirt azul que me ofereceste, ainda a tenho.

Usei-a no Verão que passou.

Hoje não ligo para ninguém!

Liguei o computador e fiz um poema.
Vou sair esta noite. Minhas saídas são poucas.
Quero esquecer o amor no barulho e nas luzes num bar das docas.


Hoje não ligo para ninguém!

__________
Pedro Arunca
2008-01-12

09/01/2008

Há poemas que...

Avivam memórias
Falam de aventuras
Contam histórias
Lembram amarguras

Relatam viagens
Fazem canção
Evocam coragem
Ensinam lição

Agitam as emoções
Espantam a solidão
Tocam os corações
Morrem de paixão

Cantam seus heróis
Adoram os astros
Seguem os girassóis
Enchem repastos

Embalam o sono
Despertam o amor
Resumem o sonho
Recordam o sabor

Vingam o ódio
Falam de Deus
Calam o Demónio
Invocam Zeus

Rodam com alegria
Revelam desejos
Agradecem o dia
Descrevem os beijos

Rimam nas feiras
Alimentam raízes
Ganham bandeiras
São hinos de países

Gritam de revolta
Choram a tristeza
Vivem sob escolta
Procuram a certeza

Pisam o palco
Marcham na rua
Apelam a algo
Lutam pela Lua

Cavam fundo
Lançam semente
Mudam o Mundo
Acordam gente
_______
Pedro Arunca
2008-01-09