13/02/2008

Os especialistas

São analistas e até consultores
Uns engenheiros, alguns doutores
Falam dos males e avisam os perigos
Vivem de avales mas acusam amigos
Falam de tudo, das coisas e de todos
Debitam palavras e sentenças a rodos
Discursam horas a fio, sem pausas
Descobrem a origem de todas as causas
Semeiam frases e ditos de outra lavra
Eruditos na dicção, na pose e na palavra
Falam da política, religião e de ciência
Só lhes falta um pouco de paciência
Há caminhos de pedras, marcados
e verdes de musgo, ignorados
Não pisaram a lama dos carreiros
Dos homens, dos bois e dos carneiros
Ressuscitam os mortos e enterram os vivos
Refugiam-se, fechados, em pilhas de livros
Comem fatias de pão descôdeado
Temperam tudo com sal refinado
Escrevem em todos os jornais
Só eles têm tempo para mais
Com tanta lucidez e tanto preceito
Não há quem ponha isto direito!
Tudo o que espirram tem nexo
Têm opinião, mas praticam sexo?
_________
Pedro Arunca
2008-02-13

09/02/2008

J' adore

A Ana, desafiou-me a enumerar e escrever sobre 6 coisas que eu adoro. Fiz a minha check-list. Escusado será pedirem-me para escrever sobre aquilo de que eu mais adoro (reservo algumas no segredo dos meus neurónios), mas não vou mentir sobre estas:

1 - Banho de imersão às escuras, com boa música a preencher os intervalos do "chap-chap".
2 - Ilhas e praias pouco frequentadas. Nalgumas horas do dia ou a qualquer hora da noite.

3 - Comer bem e beber melhor, na companhia dos amigos. Misturas: só as evito nas bebidas.
4 - Ler um livro ou ver um filme que me desperte mais alegria, reforce o gosto pela vida e pelas pessoas e desafie a minha imaginação.
5 - Sexo: calado, murmurado, falado e escrito; sem hora e lugar marcado, mas sempre acompanhado. Tenho um postura, nem sempre firme, porque entendo que cada um defenda a sua posição. Não esqueçamos que todas as posições têm as suas virtudes e o seu ponto de vista. Precisamos de ter e mente e o corpo abertos à imaginação e à criatividade. Cada qual com os seus argumentos. Ou há sexocracia ou ninguém come. Existem muitas formas de ter sussexo na vida. Dura lex non latex.
6 - Rir. O riso não tem que morar longe do siso. Podem e devem partilhar a mesma cabeça, cuja sentença deve ser coerente e verdadeira com o espírito da coisa e do coiso ( porque não?).

Como começa a ser meu costume, não nomeio a passagem do testemunho. Quem sentir que tem algo a dizer e se queira atrever a pegar-lhe, faça o favor. Um pedido lhe deixo: deixe aqui essa intenção para eu e outros passarmos por lá. Pense, abra-se e dê-se. Dar não é perder.

28/01/2008

Poema alentejano

Andava passeando
encontréi o mê amori
Pus-me estressando
Tal era o mê calori
Tropecei num caracóli
Fui c'as bentas ao chão
Estendido ali ao sóli
Pedi logo a sua mão
A moça tod'encarnada
disse qu´eu era louco
dê-me uma estalada
e disse qu'era pouco
Mas a cousa piorou
quando ma declarei
Disse-lhe tudo o que sou
e ali mesmo m' atirei
Home de poucas letras
mostrei minhas virtudes
Na me fio cá em tretas
Assumi as atitudes
Levei mais um murro
vi mas de mil estrelas
Mais esperto é mê burro
que sabe escolhe-las
na se mete nas encrecas
e está sempre a comer
Más tardi cand'acordei
ca barriga a dar horas
lá m'alevantei
dorido e com demoras
Nã sê se foi do tinto
ou talvez das chouriças
Fora compadre Jacinto
que m'arreara nas bêças
_______
Pedro Arunca
2008/01/28

23/01/2008

Há mulheres...

... charmosas, radiantes e até perfumadas;
... tímidas, furtivas e até ousadas;
... frágeis, atrevidas e até magoadas;
... corajosas, impulsivas e até apagadas;
... ambiciosas, dinâmicas e até realizadas;
... decididas, sensíveis e até desesperadas;
... cultas, atentas e até abandonadas;
... modelo, sexy e até ignoradas;
... comuns, discretas e até amadas;
... filhas, mães e até educadas;
... felizes, solteiras e até casadas;
... faladoras, de burca e até caladas;
... vaidosas, convencidas e até adoradas;
... de ninguém, viúvas e até desejadas;
... negras, claras e até pintadas;
... famintas, satisfeitas e até conformadas;
... honestas, fiéis e até enganadas;
... virgens, prostitutas e até frustradas;
... sortudas, ricas e até azaradas;
... livres, trabalhadoras e até ocupadas;
... submissas, autoritárias e até mandadas;
... doentes, drogadas e até recuperadas;
... polícia, presas e até vigiadas;
...-a-dias, noctívagas e até contratadas;
... palhaço, artistas e até choradas;
... soldado, poetisas e até acantonadas;
... serenas, activas e até revoltadas
... cantoras, desconhecidas até cantadas;
... santas, mártir e até endeusadas;
... bruxas, crentes e até enfeitiçadas;
... históricas, dramáticas e até injustiçadas
... tristes, alegres e até apaixonadas;
... esposas, amantes e até enamoradas…

_______
Pedro Arunca
2008/01/23

21/01/2008


Segunda-feira

Abrir os olhos no escuro
Consentir uns minutos
ao calor dos lençóis
Um duche apressado
Fica o espelho embaciado

Ver o tempo na janela
e os minutos contados
Vestir a pele do dia
para voltar à corrida
na maratona da vida

O café da manhã
mexido com sono
Tomar com coragem
as notícias dos jornais
São amargas demais

Rotina de cumprimentos
Nos rostos de sempre
caras de poucos amigos
O relógio fica lento
Ao salário sobra tempo

_______
Pedro Arunca
2008/01/21

12/01/2008

Hoje vou sair


Hoje não é um dia especial, sequer um dia diferente
Um dia normal, como para muita gente.
Não te telefono nem mando mensagens
Fico no meu canto. Talvez leia um livro ou escreva uns versos.

Hoje não ligo para ninguém!

Falámos há dois anos, era Natal. Muito tempo para quem não esquece.

São longos os dias de Inverno. Só a esperança me aquece.
Devo ter paciência de santo para esperar por ti, sem qualquer sinal.

Também as árvores o fazem com as aves que partiram e a Primavera ainda vem longe.

Hoje não ligo para ninguém!

Não resisto à tentação de abrir o álbum de fotos que restou.

Um sentimento estranho apodera-se de mim.
Estou diferente mas algo, que não vejo, permanece.
Aquela t-shirt azul que me ofereceste, ainda a tenho.

Usei-a no Verão que passou.

Hoje não ligo para ninguém!

Liguei o computador e fiz um poema.
Vou sair esta noite. Minhas saídas são poucas.
Quero esquecer o amor no barulho e nas luzes num bar das docas.


Hoje não ligo para ninguém!

__________
Pedro Arunca
2008-01-12

09/01/2008

Há poemas que...

Avivam memórias
Falam de aventuras
Contam histórias
Lembram amarguras

Relatam viagens
Fazem canção
Evocam coragem
Ensinam lição

Agitam as emoções
Espantam a solidão
Tocam os corações
Morrem de paixão

Cantam seus heróis
Adoram os astros
Seguem os girassóis
Enchem repastos

Embalam o sono
Despertam o amor
Resumem o sonho
Recordam o sabor

Vingam o ódio
Falam de Deus
Calam o Demónio
Invocam Zeus

Rodam com alegria
Revelam desejos
Agradecem o dia
Descrevem os beijos

Rimam nas feiras
Alimentam raízes
Ganham bandeiras
São hinos de países

Gritam de revolta
Choram a tristeza
Vivem sob escolta
Procuram a certeza

Pisam o palco
Marcham na rua
Apelam a algo
Lutam pela Lua

Cavam fundo
Lançam semente
Mudam o Mundo
Acordam gente
_______
Pedro Arunca
2008-01-09

08/01/2008

Poema do desafio

O Art of Love*, do "Se eu blogo logo existo..." presenteou-me com este desafio: pegar nos meus dez últimos títulos aqui publicados e a escrever um texto coerente. Como navego (sem carta e à deriva) no mar da poesia, cá vai:

Percorri os dias, afoito
Com planos já no ar
No calendário “2008”
Escrevi “Viver o Mar”
Tinha eu terminado
Num dia de “Céu cinzento”
”Teu poema inacabado”
Foram versos do momento
Reli “ O Natal em nós”
Promessas por cumprir
São como rios sem foz
Viajar não é “Partir”
Gosto de “Semear palavras”
Nas leiras com um fio
Dar de comer às cabras
É esse o meu “Desafio”
Recuso “Cartas viciadas”
Nestes tempos conturbados
Moedas e caras apagadas
Prefiro lançar os dardos
Há um tempo para tudo
E um dia para todos
Sabe bem o do Entrudo
Dão vinho aos bobos
Bebem e ressacam
Tomara que fosse água
Nem os santos escapam
Alegria após a mágoa
Poupariam o vizinho
E muitos trambolhões
Viva o nosso "S.Martinho"
E todos os santos foliões
_______
Pedro Arunca
2008/01/08

* Desculpa-me não passar o desafio. Quem por aqui passar e o ler que aceite se for vontade sua e, já agora, manifeste-o nos Comentários. Obrigado
Pedro

31/12/2007

Aos que me visitam, aos que me visitaram, aos que estão, aos que ficam, aos que passam, aos que lêem, aos que comentam, aos que ignoram, aos que se esqueceram, aos que nunca se lembram, aos que nunca aparecem, aos que prometem, aos que hão-de vir, aos que se vão, aos que não têm tempo e também aos etc., desejo estas coisas:
CONFORTO
OPORTUNIDADES
INSPIRAÇÃO
SORTE
AMBIÇÃO
SATISFAÇÃO

27/12/2007

Céu cinzento

Roubaram as cores do céu
acorrentaram o Sol
Sombra do gigante de breu
escuro lençol

Quem tomava conta do tempo
esqueceu a tempestade
As estrelas foram no vento
não há luz na cidade

Pede-se a quem encontrar a Lua
que a devolva, intacta, ao Mundo
Precisamos duma enorme grua
que nos tire deste vale profundo
_______________
Pedro Arunca
2007/12/27

10/12/2007

Viver no mar


Grito na explosão das ondas
sem que me ouçam
Dissolvo-me na branca espuma
sem que me vejam
Misturo-me com a areia
Sem que me sintam
Parto na ida da maré
Sem que me lembrem
_______
Pedro Arunca
2007/12/10

24/11/2007

Partir

Parar para pensar
Apetece-me partir
Levar a saudade comigo
Da paixão, do irmão e do amigo
Terra solta sem raízes
Onde se funde o cimento
A luz esconde os rostos
Ofusca o pensamento
Ocultos edifícios
Infinitas paredes
Sombra isolada
Dos amigos fiéis
Os outros, ausentes
Injusta presença
Gestão danosa
Da agenda de afectos
Seres obtusos
Ignorar regras e sinais
Limites confusos
Caminhos demorados
Acordar na noite
Bendita escuridão
Sábio silêncio
Nada nos impede
O beijo impetuoso
Quem nos domina
Merece-nos
Assim me julgo
Aqui me acuso

________
Pedro Arunca
2007-11-24

22/11/2007

Semear palavras

Semear palavras nos mapas que nos rodeia
Lançar folhetos coloridos, aos quatro ventos
Gravar nas pedras e delas fazer monumentos
Colorir os néons com luzes que encandeiam
Nos placard's, a letra de todas as canções
Usar os discursos e tomar todos os momentos
Novas equações para calcular os sentimentos
Inspirar a essência e sentir os pulmões
Escrever todos os significados latentes
No dicionário dos gestos não decifrados
Poder lavrar, de olhos fechados
Cravar, bem fundo, novas sementes
___________
Pedro Arunca
2007/11/22

15/11/2007

Desafio


Mais 2 convites ( Cantares de Amigo e ZuluDasMeiasAltas) para o mesmo desafio. Não tive coragem de recusar e cá vai o meu contributo:

"No nosso século mecanicista e científico, criámos o hábito de avaliar todas as coisas segundo os grandes princípios adoptados pela ciência e, em particular, conforme a nossa crença no determinismo."

A propósito da mudança de carácter como meio de vencer na vida, do livro "Guia de formação pessoal" (Maurício Tièche/Publicadora Atlântico) que eu li há cerca de 25 anos e que peguei para dar uma olhadela.

Passo o desafio a:

Campoemflor
Life´s Feelings
Páginas
Aspirina
A Boca do Charroco.

Regras:

1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2ª) Abra-o na página 161;
3ª) Procurar a 5ª frase completa;
4ª) Postar essa frase em seu blog;
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6ª) Repassar para outros 5 blogs;
7ª) Divulgar o nome do livro e do autor e editora.

Nota: Compreendo e aceito que não acatem este desafio, no entanto entendo que esta é uma boa oportunidade para nos darmos a conhecer não só pelos nossos livros, mas também será uma forma de divulgarmos os nossos blogues.

14/11/2007

Cartas viciadas

Não entendo o mundo. Estaremos todos cegos?
Sou mero vagabundo, no meio de ilustres pategos.
Ninguém sabe, sequer questiona, para onde vamos.
A verdade está à tona do mar onde nos afogamos.
Recusamos as cores do quadro original.
Discutimos as dores e valorizamos o artificial.
Pisamos o jardim e culpamos o vizinho.
Quem se lembra de mim, quando suja o caminho?
Discursos vazios em papel de seda.
Secamos os rios e queixamo-nos da merda.
Adoramos e aplaudimos a hipocrisia.
Repudiamos e sacudimos a ousadia.
Quem foi o último a dar? O triunfo são espadas!
Também quero jogar, sem cartas marcadas.

11/11/2007

S. Martinho

Dia de S. Martinho,
manda a tradição,
prova-se o vinho
abre-se o garrafão.
Castanhas assadas
- depende do gosto -
cozidas ou piladas.
As uvas no mosto.
Água-pé e jeropiga
animam o magusto.
O povo sempre liga
a vida a um custo
e sabe que merece
suas compensações.
Num copo esquece
Momentos e desilusões
____________
Pedro Arunca
2007/11/11

06/11/2007

Vamos andando


Já muito nos faz pensar:
imagens, músicas e textos.
Nada nos leva a mudar,
sobram razões e pretextos.
Apenas fingimos sofrer,
porque a dor é alheia.
Não basta olhar e dizer:
-Eu tive uma ideia!
Pouco sei de Economia,
mas faço de conta
que o futuro é mais um dia
e o passado o desconta.
No “deve e haver”
constam os nossos nomes.
Calar, não é viver.
Diminui os homens.
Falamos e rimos,
de tudo e de nada
O importante é irmos
com a vida hipotecada.
___________
Pedro Arunca

2007/11/06