27/12/2007

Céu cinzento

Roubaram as cores do céu
acorrentaram o Sol
Sombra do gigante de breu
escuro lençol

Quem tomava conta do tempo
esqueceu a tempestade
As estrelas foram no vento
não há luz na cidade

Pede-se a quem encontrar a Lua
que a devolva, intacta, ao Mundo
Precisamos duma enorme grua
que nos tire deste vale profundo
_______________
Pedro Arunca
2007/12/27

10/12/2007

Viver no mar


Grito na explosão das ondas
sem que me ouçam
Dissolvo-me na branca espuma
sem que me vejam
Misturo-me com a areia
Sem que me sintam
Parto na ida da maré
Sem que me lembrem
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Pedro Arunca
2007/12/10

24/11/2007

Partir

Parar para pensar
Apetece-me partir
Levar a saudade comigo
Da paixão, do irmão e do amigo
Terra solta sem raízes
Onde se funde o cimento
A luz esconde os rostos
Ofusca o pensamento
Ocultos edifícios
Infinitas paredes
Sombra isolada
Dos amigos fiéis
Os outros, ausentes
Injusta presença
Gestão danosa
Da agenda de afectos
Seres obtusos
Ignorar regras e sinais
Limites confusos
Caminhos demorados
Acordar na noite
Bendita escuridão
Sábio silêncio
Nada nos impede
O beijo impetuoso
Quem nos domina
Merece-nos
Assim me julgo
Aqui me acuso

________
Pedro Arunca
2007-11-24

22/11/2007

Semear palavras

Semear palavras nos mapas que nos rodeia
Lançar folhetos coloridos, aos quatro ventos
Gravar nas pedras e delas fazer monumentos
Colorir os néons com luzes que encandeiam
Nos placard's, a letra de todas as canções
Usar os discursos e tomar todos os momentos
Novas equações para calcular os sentimentos
Inspirar a essência e sentir os pulmões
Escrever todos os significados latentes
No dicionário dos gestos não decifrados
Poder lavrar, de olhos fechados
Cravar, bem fundo, novas sementes
___________
Pedro Arunca
2007/11/22

15/11/2007

Desafio


Mais 2 convites ( Cantares de Amigo e ZuluDasMeiasAltas) para o mesmo desafio. Não tive coragem de recusar e cá vai o meu contributo:

"No nosso século mecanicista e científico, criámos o hábito de avaliar todas as coisas segundo os grandes princípios adoptados pela ciência e, em particular, conforme a nossa crença no determinismo."

A propósito da mudança de carácter como meio de vencer na vida, do livro "Guia de formação pessoal" (Maurício Tièche/Publicadora Atlântico) que eu li há cerca de 25 anos e que peguei para dar uma olhadela.

Passo o desafio a:

Campoemflor
Life´s Feelings
Páginas
Aspirina
A Boca do Charroco.

Regras:

1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2ª) Abra-o na página 161;
3ª) Procurar a 5ª frase completa;
4ª) Postar essa frase em seu blog;
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6ª) Repassar para outros 5 blogs;
7ª) Divulgar o nome do livro e do autor e editora.

Nota: Compreendo e aceito que não acatem este desafio, no entanto entendo que esta é uma boa oportunidade para nos darmos a conhecer não só pelos nossos livros, mas também será uma forma de divulgarmos os nossos blogues.

14/11/2007

Cartas viciadas

Não entendo o mundo. Estaremos todos cegos?
Sou mero vagabundo, no meio de ilustres pategos.
Ninguém sabe, sequer questiona, para onde vamos.
A verdade está à tona do mar onde nos afogamos.
Recusamos as cores do quadro original.
Discutimos as dores e valorizamos o artificial.
Pisamos o jardim e culpamos o vizinho.
Quem se lembra de mim, quando suja o caminho?
Discursos vazios em papel de seda.
Secamos os rios e queixamo-nos da merda.
Adoramos e aplaudimos a hipocrisia.
Repudiamos e sacudimos a ousadia.
Quem foi o último a dar? O triunfo são espadas!
Também quero jogar, sem cartas marcadas.

11/11/2007

S. Martinho

Dia de S. Martinho,
manda a tradição,
prova-se o vinho
abre-se o garrafão.
Castanhas assadas
- depende do gosto -
cozidas ou piladas.
As uvas no mosto.
Água-pé e jeropiga
animam o magusto.
O povo sempre liga
a vida a um custo
e sabe que merece
suas compensações.
Num copo esquece
Momentos e desilusões
____________
Pedro Arunca
2007/11/11

06/11/2007

Vamos andando


Já muito nos faz pensar:
imagens, músicas e textos.
Nada nos leva a mudar,
sobram razões e pretextos.
Apenas fingimos sofrer,
porque a dor é alheia.
Não basta olhar e dizer:
-Eu tive uma ideia!
Pouco sei de Economia,
mas faço de conta
que o futuro é mais um dia
e o passado o desconta.
No “deve e haver”
constam os nossos nomes.
Calar, não é viver.
Diminui os homens.
Falamos e rimos,
de tudo e de nada
O importante é irmos
com a vida hipotecada.
___________
Pedro Arunca

2007/11/06

31/10/2007

O verso e o reverso

No passeio das horas
contei as pedras do tempo.
Hoje sei onde moras.
Vim no rasto do vento.
Nos jardins dos dias
gozei as pétalas oferecidas.
Não disseste onde ias,
deixaste promessas esquecidas.
No livro dos anos,
deixei páginas rasgadas,
não há índice de danos,
apenas folhas douradas.
Na berma do futuro
larguei as minhas mágoas.
Entre nós há um muro
que desvia as nossas águas.
No caminho de regresso
assinalei minha presença.
Vais descobrir o reverso
do sinal de pertença.
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Pedro Arunca
2007/11/01

27/10/2007

Poema anorético

Era um poema tão hermético
que nem a alma se lhe via.
Com um título atlético
que, ainda mais, o reduzia.
De corpo tão esquelético,
não conseguia respirar.
As voltas foram tantas,
ficou zonzo a cambalear.
Nem o calor das mantas
o tirava do torpor.
Sem ponta por onde pegar.
Fiquei de mau humor.
Não o pude amparar.
Havia uma palavra ou outra
sujeita a tal compressão,
como a frase era rota,
não fazia oração.

As rimas andavam soltas
como as folhas do Outono.
Os versos davam voltas,
pareciam cão sem dono.
Osso duro de roer.
Não o lia de nenhum jeito.
Quem o haveria de ler?
Achá-lo-ia imperfeito.
As palavras estão caras,
mas não sou de poupar,

penduro-as nas varas
para o vento as levar…

___________
Pedro Arunca
2007-10-27

Deixa o teu coração florir

Pisaram os canteiros do teu jardim
Tanto trabalho deitado por terra
Que mal fizeram as flores?
Há quem declare guerras
Mas não ganhe nos amores

Sei que choras as rosas vermelhas
Tratadas com mil carinhos
Teu coração magoado
Também guarda espinhos
Ele merece de mais cuidado

Retira as pedras e as ervas daninhas
Revolve a terra com paixão
Choveu? O sol há-de vir
Solta e abre o teu coração

Deixa-o florir
_________

Pedro Arunca
2007/10/27

26/10/2007

Viajo com a minha guitarra

Viajo com a minha guitarra
Conto minha história numa canção
Vejo poesia na rua, no mar e na lua
A tudo a minha alma se agarra
Cresce uma hera no meu coração

Beijo o mundo com minhas mãos
Canto as palavras que te fazem feliz
Para me sentires basta me ouvires
Meus amigos são como irmãos
Faço desta terra o meu novo país

Sou um solitário viajante
Carrego comigo pouca bagagem

Em cada terra vi sua guerra
Esperas de mim um eterno amante
Sou real, não uma miragem

Sinto no peito uma dor
Sonho com um novo despertar
Sou homem novo que ama seu povo

De tanto amar, conheço o amor
Dá-me uma chave para eu ficar


(Poema dedicado ao meu amigo Helder.
Parabéns amigo! Para quando uma música com poema meu?
__________
Pedro Arunca
2007-10-26

24/10/2007

Palavras desertas

Caminhar, sob sol ardente, na direcção do oásis.
Miragem?
Sombras, no horizonte, decalcadas nas dunas.
Tu?
Núvens que se agigantam pairam sobre mim.
Chuva?
Ventos rodopiantes moldam-me o corpo.
Tu?
Surge uma caravana. Peço água.
Tu!
Esqueço a sede. Bebo da tua boca.
Beijos!
Doces tâmaras saciam minha fome.
Teus seios!
Envolvente brisa. Refrescante elixir.
Teu corpo!

Estas palavras foram dedicadas a Alif e à sua amada Odasélia.
Alif era um beduíno que se perdeu, por amor, numa tenda onde conheceu Odasélia. Ela tinha: nos olhos, as estrelas da noite; na voz, o silvo do vento; no corpo, um oásis. Amaram-se, em todas as dunas, durante muitas luas. Um dia choveu tanto que se apagaram as pégadas de Alif. Os trilhos e as dunas ficaram irreconhecíveis. Ele perdeu-se num deserto de muros de cimento. Ela, depois, perdeu-se em muitos braços.
___________
Pedro Arunca

1992

21/10/2007

Caixas de histórias

Numa caixa de sapatos
guardo pedaços da vida:
cartas, postais e retratos.
Minha estrada percorrida.
Noutra caixa de cartão
escondo alguns poemas,
sairam da minha mão
e abordam vários temas.
Nas caixas pequeninas
juntei diversa tralha:
canetas grossas e finas
e mais o que lá calha.
Porta-chaves, calendários
e selos dos correios,
são os meus relicários.
Registos dos meus passeios.
Cada coisa tem uma história
com a sua referência.
Mais valor tem a memória
o tesouro da vivência.

19/10/2007

Na pesca


Pela Ponte, até à praia,
chego à ponta do esporão.
Muitas pedras, puxou o mar,
levam lapas e muito mexilhão
Ponho isco no anzol.
Lanço e espero pelo sinal.
Pica o peixe apressado,
puxa a bóia para baixo.
A ponteira fica dobrada,
pesco um sargo “palmeiro”.
Pois este já tem medida,
no balde preto é o primeiro.
Ponho mais chumbo no fio
para afundar depressa.
Prende a linha numa rocha.
Apanhei um ouriço!
Picam muito os seus espinhos,
pois já tive essa experiência.
Pego nele com cuidado,
quando crescer que apareça.
Na pesca não há profissões,
apenas “companheiros”.
Há sempre um cumprimento.
Cada um ocupa o seu espaço,
onde impera o respeito.
Preia-mar de calmaria.
Só um peixe eu apanhei.
Sopra o vento, do Espichel.
Passo a tarde para uma foto.
Põe-se o sol na Caparica.
_______

Pedro Arunca
2007-10-19

15/10/2007

A minha avó tinha um gato

A minha avó tinha um gato
que brincava no meu sapato.
Não gostava de sobremesa
mas cheirava de certeza.
Sempre que eu chegava,
ele me cumprimentava.
Dormia no meu colo
e gostava de consolo.
De orelhas em alerta,
despertava pela certa,
se alguma coisa ouvia.
Lá ele me fugia.
“Bicho, bicho” - chamava eu –
Acho que nunca me respondeu.
Quando à noite se escapava
o galinheiro acordava.
Os cães presos, num alvoroço,
de vigia a um osso
não paravam de ladrar.
Só o gato podia caçar.
Teriam, eles, inveja
da vida de Sua Alteza?
Por vezes não aparecia,
nem de noite nem dia.
Tinha eu pouca idade,
fiz-lhe uma maldade:
Parecia uma bala!
Maldita bengala!
Nunca mais apareceu.
Foi a mim que mais doeu.
À minha avó, nunca contei.
Jamais o esquecerei.
__________
Pedro Arunca
2007-10-15

Se...

Se restar uma folha na árvore
Se a Lua vier esta noite
Se o trovão me acordar
Se o Sol voltar a nascer
Se os pássaros ainda cantarem
Se o meu corpo mexer
Se os meus olhos abrirem
Se as pernas me levarem
Se os caminhos estiverem livres
Se ainda te lembrares de mim
Se me olhares nos olhos
Se me deixares tocar-te
Se eu ficar contigo

Então, vou querer acordar para te ver sorrir e escreverei a Deus uma carta, com tinta do meu sangue, agradecendo-Lhe por me devolver o sonho e a paz.

12/10/2007

Palavras soltas

Há palavras que nos sujeitam ao verbo
e preenchem o silêncio do olhar

09/10/2007

Ainda há tempo para escrever um poema
ver as horas na sombra duma árvore
deixar o sol pousar na mão e os olhos seguirem as aves

06/10/2007

Outono

Abalaram as andorinhas
ficou o silêncio nos ninhos
Os tractores num vaivém
fazem novos caminhos
com destino aos lagares
Restam poucas vinhas
para ir rebuscar
as uvas de ninguém
As folhas esvoaçando
lembram aves feridas
os miúdos arrastando
fazem grandes corridas
até o fundo da ladeira
O monte de folhas secas
serve para brincadeira
A garotada se rebola
nas férias derradeiras
Já compraram a sacola
e largaram os calções
É em casa e na escola
que aprendem as lições
para enfrentarem o mundo
O rio corre ainda devagar
O tempo arrefece
As cabras com seus guizos
comem do pasto que as aquece
Os campos ficam lisos
Os fogos foram um inferno
Os pinheiros que sobraram
vão aquecer o inverno
dos filhos que os herdaram
________
Pedro Arunca
2007/10/06