06/10/2007

Outono

Abalaram as andorinhas
ficou o silêncio nos ninhos
Os tractores num vaivém
fazem novos caminhos
com destino aos lagares
Restam poucas vinhas
para ir rebuscar
as uvas de ninguém
As folhas esvoaçando
lembram aves feridas
os miúdos arrastando
fazem grandes corridas
até o fundo da ladeira
O monte de folhas secas
serve para brincadeira
A garotada se rebola
nas férias derradeiras
Já compraram a sacola
e largaram os calções
É em casa e na escola
que aprendem as lições
para enfrentarem o mundo
O rio corre ainda devagar
O tempo arrefece
As cabras com seus guizos
comem do pasto que as aquece
Os campos ficam lisos
Os fogos foram um inferno
Os pinheiros que sobraram
vão aquecer o inverno
dos filhos que os herdaram
________
Pedro Arunca
2007/10/06

04/10/2007

Bolo de aniversário

Não me lembro de ninguém que faça anos hoje mas, como há muito não ponho aqui receitas, cá vai uma doce:

Siga a receita como sendo um encontro (bolo) de amigos (ovos) de verdade (gema). Num local aprazível (forma), onde possam trocar umas ideias (claras), não esqueça que eles não são todos farinha (trigo) do mesmo saco: adicione, misture e bata nos temas (ingredientes) do agrado geral mas respeitando a opinião de cada um (dosagens). Adoce-lhes a boca (mel) e não poupe um elogio (manteiga) e uma oportuna piada (sal). Brinde (porto) à amizade e à saúde de todos e agradeça (seu papel).

O bolo…

Ingredientes:
6 claras
5 gemas
1 pitada de sal
2 colheres de mel
300 g de açúcar refinado
500 g de farinha de trigo
200 g de manteiga
0,6 dl de vinho do Porto
Papel vegetal



Mãos à obra
1 - Bata as claras, com pitada de sal, até apresentarem alguma consistência

2 - Ponha as gemas numa taça funda de pirex, mexa-as, misture-as com o açúcar e junte as claras já batidas. Sobre uma panela ou taxo com água quente, junte 2 colheres de mel e vinho do Porto, bata tudo de modo a engrossar. Deixe de fora a arrefecer (4 a 6 minutos).

3 - Junte aos poucos a farinha, misturando com o Salazar de modo zig-zag e sem levantar (para manter o ar).
4 - Numa forma preparada (untada com manteiga, polvilhada com farinha e forrada com papel vegetal), despeje a massa devagar com auxílio da espátula.
5 - Leve ao forno a 170º de 25 a 30 minutos.
Desenforme.
6 - Sugestões para recheio e cobertura:
Mousse chocolate, chantily, Baba de camelo *

Recheio: corte o bolo ao meio, na horizontal, aplique sobre a metade inferior uma camada generosa e reponha a outra metade.
Cobertura: pode optar pelas sobremesas* à venda no comércio e decorar com bombons, pintarolas, smarties, M&M’s ou gomas sugestivas.

Versão+Rápida+Económica=Original
Comprar Pão-de- + sobremesas e aplique-se no passo 6.
Parabéns a você…

01/10/2007

Dia Mundial da Música

A música preenche-me o intervalo das palavras e o silêncio do olhar. Sem ela não imagino o mundo que me rodeia.
Recordo os filmes mudos que ganhavam dimensão por via da música. As cenas de suspense, emoção e drama nos ritmos, andante, moderato, allegro ou fortissimo mexiam comigo.

http://br.youtube.com/watch?v=U4-eXq4I37k

28/09/2007

Sem poema



Vou fazer deste espaço um lugar para os meus "sem poema". O Verão já lá vai, o tempo arrefece, e os versos se não forem usados também definham e morrem. Ficarei atento aos que mais resistirem e lhes darei abrigo num poema que os mereça.

Horas tardias
Uma janela com luz azulada
Alguém vencido pela madrugada
ligado na solidão
O sono franqueado
sonho agitado
trabalho forçado
horário trocado
companheiro fechado

27/09/2007

Amor em tempo de guerra (versão reduzida)

Teu busto fronteiriço
Meu corpo, trincheira
Trombeta estridente
Grito alvorado
Rio mortiço
Ponte de madeira

Nuvens escuras
Olhos de cinza

Teu rosto escondido
Minhas mãos, lanças
Trovão emergente
Raio dourado
Pombo ferido
Águas mansas

Chuva anunciada
Lágrimas negras

Tua boca fechada
Meu peito, brasão
Tempestade eminente
Luz prateada
Terra alagada
Sem chão

Vento suão
Afago quente

Teus olhos profundos
Meu coração galopante
Sinfonia tangente
Hino de paz
Dois mundos
Reino triunfante

Véu de estrelas
Diamantes suspensos

Teus braços em arco

Meu sorriso glorioso
Tambor presente
Seta que jaz
O trono é barco
Mar imperioso

Lua Nova
Espelho divino
_______
Pedro Arunca
2007/09/27

Amor em tempo de guerra

Vigio o teu busto fronteiriço
Do meu corpo faço trincheira
Toca a trombeta estridente
Eco de grito alvorado
Separa-nos um rio mortiço
e uma velha ponte de madeira

Manto de nuvens escuras
são olhos de cinza

Teu rosto sempre escondido
Ergo minhas mãos como lanças
Ouvimos trovão emergente
Cai um raio dourado
Há um pombo ferido
num regato de águas mansas

Tomba a chuva anunciada
são lágrimas negras

A tua boca mantém-se fechada
No meu peito cravo o brasão
Há uma tempestade eminente
Um brilho de luz prateada
A terra fica alagada
Sem chão

Acorda o vento suão
é afago quente

Teus olhos grandes e profundos
Meu coração parte galopante
Misteriosa sinfonia tangente
Soa a hino de paz
Encontro de dois mundos
Por um reino triunfante

Um véu de estrelas
São diamantes suspensos

Teus braços formam um arco
Ofereço meu sorriso glorioso
Há um tambor presente
Onde a seta jaz
Nosso trono é um barco
Neste mar imperioso

Lua Nova
Espelho divino

_______

Pedro Arunca
2007/09/27

22/09/2007

Fado para ti

Já conheço todas as ruas
do bairro onde tu moras
Perguntei por ti
Ninguém dá notícias tuas
Vi passar todas as horas
Não sei de ti
Muitas tardes nos cafés
lendo todos os jornais
Pensei em ti
Aprendi a ler as marés
nos muros do cais
Esperei por ti
Falei com muita gente
que se cruzou comigo
Falei de ti
Quem ama, sabe e sente
a dor de um amigo
Chorei por ti
Fui bater à tua janela
Ninguém me respondeu
Chamei por ti
Fiquei de sentinela
Tua porta não mexeu
Gritei por ti
As paixões deixam danos
saudades e dissabores
Rezei por ti
Já passaram muitos anos
Vivi outros amores
Amei por ti
_________

Pedro Arunca
2007/09/22

16/09/2007

Por detrás das palavras

Verbo presente
Sujeito ausente
Olhar directo
Falar certo
Palavra sentida
Emoção vivida
Discurso fluído
Eco nítido
Destino garantido
Caminho conseguido
Testemunho gravado
Desejo realizado

09/09/2007

Versos da minha horta

Abóbora
A ferrugem vai embora
Alface
Melhora a face
Alho
Não confundo com bugalho
Batata
Memória que desata
Beringela
Meu corpo sem mazela
Beterraba
Meu mundo não desaba
Bróculos
Vejo melhoras sem óculos
Cebola
Meu estômago não rebola
Cenoura
Minha vista melhora
Cogumelos
Há feios e belos
Couve
Coração que se ouve
Ervilhas
Tudo corre às mil maravilhas
Espargo
Fico mais magro
Pepino
Minha pele de menino
__________
Pedro Arunca
2007/09/09

06/09/2007

Luciano Pavarotti

Posted by Picasa
No palco, o mundo era uma grande nação.
((((((( Avé Maria )))))))

05/09/2007

Versos afruditos

Já o dia chegava a meio, quando me arrastei até à cozinha na esperança de algo me tentar. Reparei na fruteira e peguei numa reineta. Lavei-a, com água da torneira, porque gosto dela (da fruta!) com casca, e assim que dou a primeira dentada: uma ideia!

Abacate
Animado, nada me abate.
Ameixa
Acaba-se a queixa
Ananás
Mostro do que sou capaz
Banana
Rio toda a semana
Cereja
Porque meu coração deseja
Diospiro
Minha pele não é papiro
Coco
Não corro pouco
Figo
Penso no que digo
Goiaba
Muita coisa me lava
Kiwi
Melhor me senti
Limão
Meu corpo são
Laranja
Tudo cá se arranja
Maçã
Curto uma batida sã
Mamão
Abaixo a inflamação!
Manga
Não é energia da tanga
Marmelo
Vejo corpo mais belo
Melancia
Passo um bom dia
Melão
A vida não é uma prisão
Morango
Danço a valsa e o tango
Nêspera
De que estou à espera?
Pêra
É sempre Primavera
Pêssego
À vida me apego
Uva
Meu corpo enxuga

Como fruta, logo vou à luta…
_____
Pedro Arunca
2007/09/05

31/08/2007

Roazes

"Tursiops truncatus"
Estes, e muitos mais, vi-os a 8 milhas de Cascais.
O mar me quer o mar me encanta.

29/08/2007

Justificação

Alguns amigos, que passam por aqui, perguntam-me por que tenho escrito pouco nos últimos tempos. Então, para esses e para outros, cá vai a justificação:

Saibam que tenho escrito muito mais do que habitualmente. Acontece que estou, em várias frentes, à volta de 6 poemas, 1 história infantil e ainda num texto sobre "Nós". Dos poemas, 4 destinam-se a um amigo do Porto que canta (e bem!) o fado. Ele vai gravar um CD e pediu-me "2 letras" para "inéditos". Vou apresentar-lhe 4 "letras", para ele seleccionar. Um músico seu amigo fará as respectivas músicas. Darei notícias na altura certa.
Escrever requer inspiração, motivação e outras palavras e palavrões com "ão" no fim.
Por vezes, comparo uma frase ou um poema a uma pedra ou um pedaço de madeira. Para lhe dar forma tenho de esculpir. Dá o seu trabalho...

PS. Obrigado pelos vossos cuidados

Sem nome

Se eu tivesse poderes sobre a Lua
Todas as noites seriam de luar
Parava e esperava na tua rua
Para te poder ver chegar

Abre sempre as tuas janelas
Para eu por elas puder entrar
Tu és das luzes mais belas
Que os meus olhos podem desejar

Não escrevo teu nome nos muros
Porque um dia serão derrubados
Meu coração não é dos mais duros
Mas tem o teu bem gravado

Se em cada rua por onde passas
Houvesse uma câmara a filmar
Todas as horas eram escassas
Para eu te poder admirar

Já não sei qual o teu perfume
Nem as roupas que estás usando
Mas teu cheiro ainda é lume
Recordo-o de vez em quando

Ver-te feliz e sempre a sorrir
É meu desejo e prece divina
Dava tudo para também ouvir
Tua doce voz de menina

Guardo um sonho antigo
Bem no fundo, dentro mim
Um dia farei contigo
uma viagem sem fim

Palavras não faltarão
Para expressar meu sentimento
Gestos e afectos, farão
dele um melhor momento

17/08/2007

O mar

Céu invertido
De estrelas revestido
Lua dominante
Sina de amante
Elo grandioso
Íman poderoso
A ira e a calma
Espelho da alma
Na cor a emoção:
revolta ou paixão
Água de mil rios
Flores e navios
Palco de guerras
Move terras
Constrói e devasta
Envolve e arrasta
Leva para o fundo:
a gente e o mundo
Universo inspirador
de poesia e amor
Reino maravilhoso
Neptuno misterioso

______
Pedro Arunca
2007/08/17

10/08/2007

Entra na onda

Nuvens negras
Proibidas regras
Sirenes loucas
Vozes roucas

Chuva de verão
Esquecida canção
Roupa escassa
Rosto de farsa

Ruas molhadas
Portas fechadas
Óculos escuros
Homens duros

Olhos inundados
Passos apressados
Carteira vazia
Velha fotografia

Água turva
Perigosa curva
Sinal escondido
Corpo vendido

Mares profundos
Separam mundos
Gente perdida
Lutando pela vida

Onda gigante
Multidão falante
Faixa evolvente
Fala quem sente

30/07/2007

A vida são momentos

Não me calo numa cantilena
nem me esvaio num poema
Discorro no grito das palavras
morro no discurso das culatras

Perco o tempo num segundo
Rodo os ponteiros do mundo
Dou corda para além das horas
Vivo no ciclo das velhas noras

Apelo aos homens silenciados
Canto versos nunca declamados
Pego na tinta espessa e escura
Pinto os muros de pedra dura

Meu corpo tomba, indefeso
Minha alma, contra-peso
Meus registos são fragmentos
No caderno dos momentos

__________
Pedro Arunca
2007/07/30

24/07/2007

Central Ternonuclear

Olhos fechados
Lábios molhados
Dedos cruzados
Corpos suados

Cabelos, desatados e esguios
Braços, envolventes e macios
Pernas, deltas de dois rios
Pele, dois mapas de arrepios

Mãos sabidas
Línguas atrevidas
Vozes gemidas
Palavras vividas

Átomos de ternura,
gestos liquefeitos
Alta temperatura,
gerada sem preceitos
Partículas infinitas,
núcleo profundo
Central afectoctiva,
prazer do Mundo

_______
Pedro Arunca
2007-07-24

16/07/2007

Balanço Sintético

Partiu contra vontade
Sofreu a dor, calado
Não cumpriu a idade
O destino foi apressado

Deixa boas memórias
Nas contas do Razão
Resultados e histórias
Lucros do Coração

Caminhos cruzados
Simpatia natural
Negócios firmados
Com um bom final

De olhos confiantes
Lia nas entrelinhas
Sempre, ouvia antes
Fazia contas certinhas

Rigor e correcção
Pilares da sua vida
Brio e dedicação
Assinatura reconhecida

Num gesto peculiar
Ponderava e resumia
Mão na barba a alisar
Era o balanço do dia

(A um amigo que me abriu portas, que jamais se fecharão, onde se fizeram negócios e se construiram amizades.)