27/09/2007

Amor em tempo de guerra

Vigio o teu busto fronteiriço
Do meu corpo faço trincheira
Toca a trombeta estridente
Eco de grito alvorado
Separa-nos um rio mortiço
e uma velha ponte de madeira

Manto de nuvens escuras
são olhos de cinza

Teu rosto sempre escondido
Ergo minhas mãos como lanças
Ouvimos trovão emergente
Cai um raio dourado
Há um pombo ferido
num regato de águas mansas

Tomba a chuva anunciada
são lágrimas negras

A tua boca mantém-se fechada
No meu peito cravo o brasão
Há uma tempestade eminente
Um brilho de luz prateada
A terra fica alagada
Sem chão

Acorda o vento suão
é afago quente

Teus olhos grandes e profundos
Meu coração parte galopante
Misteriosa sinfonia tangente
Soa a hino de paz
Encontro de dois mundos
Por um reino triunfante

Um véu de estrelas
São diamantes suspensos

Teus braços formam um arco
Ofereço meu sorriso glorioso
Há um tambor presente
Onde a seta jaz
Nosso trono é um barco
Neste mar imperioso

Lua Nova
Espelho divino

_______

Pedro Arunca
2007/09/27

22/09/2007

Fado para ti

Já conheço todas as ruas
do bairro onde tu moras
Perguntei por ti
Ninguém dá notícias tuas
Vi passar todas as horas
Não sei de ti
Muitas tardes nos cafés
lendo todos os jornais
Pensei em ti
Aprendi a ler as marés
nos muros do cais
Esperei por ti
Falei com muita gente
que se cruzou comigo
Falei de ti
Quem ama, sabe e sente
a dor de um amigo
Chorei por ti
Fui bater à tua janela
Ninguém me respondeu
Chamei por ti
Fiquei de sentinela
Tua porta não mexeu
Gritei por ti
As paixões deixam danos
saudades e dissabores
Rezei por ti
Já passaram muitos anos
Vivi outros amores
Amei por ti
_________

Pedro Arunca
2007/09/22

16/09/2007

Por detrás das palavras

Verbo presente
Sujeito ausente
Olhar directo
Falar certo
Palavra sentida
Emoção vivida
Discurso fluído
Eco nítido
Destino garantido
Caminho conseguido
Testemunho gravado
Desejo realizado

09/09/2007

Versos da minha horta

Abóbora
A ferrugem vai embora
Alface
Melhora a face
Alho
Não confundo com bugalho
Batata
Memória que desata
Beringela
Meu corpo sem mazela
Beterraba
Meu mundo não desaba
Bróculos
Vejo melhoras sem óculos
Cebola
Meu estômago não rebola
Cenoura
Minha vista melhora
Cogumelos
Há feios e belos
Couve
Coração que se ouve
Ervilhas
Tudo corre às mil maravilhas
Espargo
Fico mais magro
Pepino
Minha pele de menino
__________
Pedro Arunca
2007/09/09

06/09/2007

Luciano Pavarotti

Posted by Picasa
No palco, o mundo era uma grande nação.
((((((( Avé Maria )))))))

05/09/2007

Versos afruditos

Já o dia chegava a meio, quando me arrastei até à cozinha na esperança de algo me tentar. Reparei na fruteira e peguei numa reineta. Lavei-a, com água da torneira, porque gosto dela (da fruta!) com casca, e assim que dou a primeira dentada: uma ideia!

Abacate
Animado, nada me abate.
Ameixa
Acaba-se a queixa
Ananás
Mostro do que sou capaz
Banana
Rio toda a semana
Cereja
Porque meu coração deseja
Diospiro
Minha pele não é papiro
Coco
Não corro pouco
Figo
Penso no que digo
Goiaba
Muita coisa me lava
Kiwi
Melhor me senti
Limão
Meu corpo são
Laranja
Tudo cá se arranja
Maçã
Curto uma batida sã
Mamão
Abaixo a inflamação!
Manga
Não é energia da tanga
Marmelo
Vejo corpo mais belo
Melancia
Passo um bom dia
Melão
A vida não é uma prisão
Morango
Danço a valsa e o tango
Nêspera
De que estou à espera?
Pêra
É sempre Primavera
Pêssego
À vida me apego
Uva
Meu corpo enxuga

Como fruta, logo vou à luta…
_____
Pedro Arunca
2007/09/05

31/08/2007

Roazes

"Tursiops truncatus"
Estes, e muitos mais, vi-os a 8 milhas de Cascais.
O mar me quer o mar me encanta.

29/08/2007

Justificação

Alguns amigos, que passam por aqui, perguntam-me por que tenho escrito pouco nos últimos tempos. Então, para esses e para outros, cá vai a justificação:

Saibam que tenho escrito muito mais do que habitualmente. Acontece que estou, em várias frentes, à volta de 6 poemas, 1 história infantil e ainda num texto sobre "Nós". Dos poemas, 4 destinam-se a um amigo do Porto que canta (e bem!) o fado. Ele vai gravar um CD e pediu-me "2 letras" para "inéditos". Vou apresentar-lhe 4 "letras", para ele seleccionar. Um músico seu amigo fará as respectivas músicas. Darei notícias na altura certa.
Escrever requer inspiração, motivação e outras palavras e palavrões com "ão" no fim.
Por vezes, comparo uma frase ou um poema a uma pedra ou um pedaço de madeira. Para lhe dar forma tenho de esculpir. Dá o seu trabalho...

PS. Obrigado pelos vossos cuidados

Sem nome

Se eu tivesse poderes sobre a Lua
Todas as noites seriam de luar
Parava e esperava na tua rua
Para te poder ver chegar

Abre sempre as tuas janelas
Para eu por elas puder entrar
Tu és das luzes mais belas
Que os meus olhos podem desejar

Não escrevo teu nome nos muros
Porque um dia serão derrubados
Meu coração não é dos mais duros
Mas tem o teu bem gravado

Se em cada rua por onde passas
Houvesse uma câmara a filmar
Todas as horas eram escassas
Para eu te poder admirar

Já não sei qual o teu perfume
Nem as roupas que estás usando
Mas teu cheiro ainda é lume
Recordo-o de vez em quando

Ver-te feliz e sempre a sorrir
É meu desejo e prece divina
Dava tudo para também ouvir
Tua doce voz de menina

Guardo um sonho antigo
Bem no fundo, dentro mim
Um dia farei contigo
uma viagem sem fim

Palavras não faltarão
Para expressar meu sentimento
Gestos e afectos, farão
dele um melhor momento

17/08/2007

O mar

Céu invertido
De estrelas revestido
Lua dominante
Sina de amante
Elo grandioso
Íman poderoso
A ira e a calma
Espelho da alma
Na cor a emoção:
revolta ou paixão
Água de mil rios
Flores e navios
Palco de guerras
Move terras
Constrói e devasta
Envolve e arrasta
Leva para o fundo:
a gente e o mundo
Universo inspirador
de poesia e amor
Reino maravilhoso
Neptuno misterioso

______
Pedro Arunca
2007/08/17

10/08/2007

Entra na onda

Nuvens negras
Proibidas regras
Sirenes loucas
Vozes roucas

Chuva de verão
Esquecida canção
Roupa escassa
Rosto de farsa

Ruas molhadas
Portas fechadas
Óculos escuros
Homens duros

Olhos inundados
Passos apressados
Carteira vazia
Velha fotografia

Água turva
Perigosa curva
Sinal escondido
Corpo vendido

Mares profundos
Separam mundos
Gente perdida
Lutando pela vida

Onda gigante
Multidão falante
Faixa evolvente
Fala quem sente

30/07/2007

A vida são momentos

Não me calo numa cantilena
nem me esvaio num poema
Discorro no grito das palavras
morro no discurso das culatras

Perco o tempo num segundo
Rodo os ponteiros do mundo
Dou corda para além das horas
Vivo no ciclo das velhas noras

Apelo aos homens silenciados
Canto versos nunca declamados
Pego na tinta espessa e escura
Pinto os muros de pedra dura

Meu corpo tomba, indefeso
Minha alma, contra-peso
Meus registos são fragmentos
No caderno dos momentos

__________
Pedro Arunca
2007/07/30

24/07/2007

Central Ternonuclear

Olhos fechados
Lábios molhados
Dedos cruzados
Corpos suados

Cabelos, desatados e esguios
Braços, envolventes e macios
Pernas, deltas de dois rios
Pele, dois mapas de arrepios

Mãos sabidas
Línguas atrevidas
Vozes gemidas
Palavras vividas

Átomos de ternura,
gestos liquefeitos
Alta temperatura,
gerada sem preceitos
Partículas infinitas,
núcleo profundo
Central afectoctiva,
prazer do Mundo

_______
Pedro Arunca
2007-07-24

16/07/2007

Balanço Sintético

Partiu contra vontade
Sofreu a dor, calado
Não cumpriu a idade
O destino foi apressado

Deixa boas memórias
Nas contas do Razão
Resultados e histórias
Lucros do Coração

Caminhos cruzados
Simpatia natural
Negócios firmados
Com um bom final

De olhos confiantes
Lia nas entrelinhas
Sempre, ouvia antes
Fazia contas certinhas

Rigor e correcção
Pilares da sua vida
Brio e dedicação
Assinatura reconhecida

Num gesto peculiar
Ponderava e resumia
Mão na barba a alisar
Era o balanço do dia

(A um amigo que me abriu portas, que jamais se fecharão, onde se fizeram negócios e se construiram amizades.)

03/07/2007

Amar com sentido

Música 7
Podes crescer dentro de mim
sem nunca te tocar
e sentir tua presença
sem que te veja




Podes ser o vento no jardim
sem nunca te cheirar
e sentir a tua essência
sem que te beije


Podes saber ao mel do jasmim
sem nunca te provar
e sentir a tua anuência
sem que te desleixe


Podes viver sob manto de carmim
sem nunca te olhar
e sentir a tua clemência
sem que te deseje


Podes morrer num cântico sem fim
sem nunca te escutar
e sentir a tua ausência
sem que te solfeje


_______________
Pedro Arunca
2007/07/03

01/07/2007

Maravilhas.......

Obrigado Ana pela nomeação. O teu "O Cantinho da Anokas" bem merece o meu voto. Aprecio o teu jeito de ditar e de deitar as coisas cá para fora.


Regulamento destas nomeações:

1. Podem participar na votação todos os bloggers que mantenham blogues activos há mais de um mês.
2. Cada blogger deverá referenciar sete nomes de blogs. A cada menção corresponde um 1 voto.
3. Cada blogger só poderá votar uma vez,e deverá publicar as suas menções no seu blog [da forma que melhor lhe aprouver], enviando-as posteriormente para o seguinte e-mail:7.maravilhas.blogoesfera@gmail.com.

No e-mail, para além da escolha, deverão indicar o link para o post onde efectuaram as nomeações. A data limite para a publicação e envio das votações é dia: 01/07/2007.
4. De forma a reduzir alguns constrangimentos [e desplantes], e evitar algumas cortesias desnecessárias, também são considerados votos nulos:

- Os votos dos blogger(s) em si próprio(s) ou no(s) blogue(s) em que participa(m);

- Os votos no blog O Sentido das Coisas.
No dia 7.7.2007 serão anunciados os vencedores e disponibilizadas todas as votações.


Entrei há pouco tempo na blogosfera no entanto, após horas e horas a digitar, dos muitos blogues que já visitei e percorri estes, por diferentes razões, merecem a minha nomeação:

O Cantinho da Anokas
Red Diaries
again and again for you and me
Encontros luminosos
FUNDAMENTALIDADES
O Elogio Da Loucura
A Kind of Magic II

25/06/2007

Andar devagar

Precisamos de mais tempo para apreciar cada momento.
Parar, escutar e olhar falar, gravar e fotografar:

o desenho feito na calçada
a porta de madeira talhada

a varanda vestida de flores
os vasos de todas as cores
a pequena flor amarela
o gato que espreita à janela

a roupa presa com mola
o periquito a cantar na gaiola
o eléctrico que vai lento
os rostos talhados pelo tempo
a idosa que sobe a calçada
o garoto que manda piada
o sem-abrigo deitado
o cartão empilhado
o Mercedes topo de gama
o Fiat sujo de lama
as paredes com grafite
as mãos com artrite
o desabafo confidente
a queixa de quem sente
os cartazes de publicidade
os excessos de velocidade
as tascas de rostos parados
os copos e pratos aviados
as pombas e os pardais
as despedidas no cais
os namorados no jardim
os lagos e peixes sem fim.

Tudo fica diferente:
a cidade, as ruas e a gente
____________
Pedro Arunca
2007/06/25

07/06/2007

África nela

Seus cabelos
lianas
seus olhos
clareiras
seu rosto
mistério
suas mãos
conchas
seu coração
tambor
seu corpo
terra
suas lágrimas
diamantes
seu sorriso
aurora
sua voz
chuva
seus gestos
brisa
seu andar
felino
_____
Pedro Arunca
2007/06/07

02/06/2007

Acordar

Caminhar
cego, de luz.
Teu brilho, etéreo
fere e seduz.

Chegar
farto, de dor
Teu corpo, mistério
íman e gerador

Sonhar
tolhido, de amor
Teu coração, distante
gelo e dissabor

Acordar
agitado, de mágoa
Tua imagem, presente
fogo e água

Palavras
quentes, de lume
Tua sombra, fria
lâmina e gume

__________
Pedro Arunca
2007/06/02