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25/04/2008

Abril

Bocas em surdina,
semeavam ideias.
Na lavra dos homens
a razão, clandestina.
As prisões cheias,
campo de reféns.
A monte, sem eira.
Noite companheira.
Na sombra dos livros,
ocultos perigos.
O poder, de uniforme,
governava a fome.
Canções caladas.
Poemas de alerta.
Palavras vigiadas.
O sol era quadrado.
Calava-se o poeta.
O cerco apertado.
No ponto de mira,
o destino africano.
Cada bala no cano,
uma vida que tira.
Luto nos pelotões.
O sangue nas fardas:
medalhas manchadas.
Cartas negras. Lições.
Mas a fé não abala.
Na aldeia e na sanzala,
reza-se pela mudança.
A paz tem muitas cores.
Nos quartéis de esperança.
Soldados em marcha,
empunham flores.
Derrubam as barreiras
e mudam as bandeiras.
Podemos falar.

__________
Pedro Arunca
2007/04/25

27/12/2007

Céu cinzento

Roubaram as cores do céu
acorrentaram o Sol
Sombra do gigante de breu
escuro lençol

Quem tomava conta do tempo
esqueceu a tempestade
As estrelas foram no vento
não há luz na cidade

Pede-se a quem encontrar a Lua
que a devolva, intacta, ao Mundo
Precisamos duma enorme grua
que nos tire deste vale profundo
_______________
Pedro Arunca
2007/12/27

10/12/2007

Viver no mar


Grito na explosão das ondas
sem que me ouçam
Dissolvo-me na branca espuma
sem que me vejam
Misturo-me com a areia
Sem que me sintam
Parto na ida da maré
Sem que me lembrem
_______
Pedro Arunca
2007/12/10

24/11/2007

Partir

Parar para pensar
Apetece-me partir
Levar a saudade comigo
Da paixão, do irmão e do amigo
Terra solta sem raízes
Onde se funde o cimento
A luz esconde os rostos
Ofusca o pensamento
Ocultos edifícios
Infinitas paredes
Sombra isolada
Dos amigos fiéis
Os outros, ausentes
Injusta presença
Gestão danosa
Da agenda de afectos
Seres obtusos
Ignorar regras e sinais
Limites confusos
Caminhos demorados
Acordar na noite
Bendita escuridão
Sábio silêncio
Nada nos impede
O beijo impetuoso
Quem nos domina
Merece-nos
Assim me julgo
Aqui me acuso

________
Pedro Arunca
2007-11-24

22/11/2007

Semear palavras

Semear palavras nos mapas que nos rodeia
Lançar folhetos coloridos, aos quatro ventos
Gravar nas pedras e delas fazer monumentos
Colorir os néons com luzes que encandeiam
Nos placard's, a letra de todas as canções
Usar os discursos e tomar todos os momentos
Novas equações para calcular os sentimentos
Inspirar a essência e sentir os pulmões
Escrever todos os significados latentes
No dicionário dos gestos não decifrados
Poder lavrar, de olhos fechados
Cravar, bem fundo, novas sementes
___________
Pedro Arunca
2007/11/22

14/11/2007

Cartas viciadas

Não entendo o mundo. Estaremos todos cegos?
Sou mero vagabundo, no meio de ilustres pategos.
Ninguém sabe, sequer questiona, para onde vamos.
A verdade está à tona do mar onde nos afogamos.
Recusamos as cores do quadro original.
Discutimos as dores e valorizamos o artificial.
Pisamos o jardim e culpamos o vizinho.
Quem se lembra de mim, quando suja o caminho?
Discursos vazios em papel de seda.
Secamos os rios e queixamo-nos da merda.
Adoramos e aplaudimos a hipocrisia.
Repudiamos e sacudimos a ousadia.
Quem foi o último a dar? O triunfo são espadas!
Também quero jogar, sem cartas marcadas.

11/11/2007

S. Martinho

Dia de S. Martinho,
manda a tradição,
prova-se o vinho
abre-se o garrafão.
Castanhas assadas
- depende do gosto -
cozidas ou piladas.
As uvas no mosto.
Água-pé e jeropiga
animam o magusto.
O povo sempre liga
a vida a um custo
e sabe que merece
suas compensações.
Num copo esquece
Momentos e desilusões
____________
Pedro Arunca
2007/11/11

06/11/2007

Vamos andando


Já muito nos faz pensar:
imagens, músicas e textos.
Nada nos leva a mudar,
sobram razões e pretextos.
Apenas fingimos sofrer,
porque a dor é alheia.
Não basta olhar e dizer:
-Eu tive uma ideia!
Pouco sei de Economia,
mas faço de conta
que o futuro é mais um dia
e o passado o desconta.
No “deve e haver”
constam os nossos nomes.
Calar, não é viver.
Diminui os homens.
Falamos e rimos,
de tudo e de nada
O importante é irmos
com a vida hipotecada.
___________
Pedro Arunca

2007/11/06

31/10/2007

O verso e o reverso

No passeio das horas
contei as pedras do tempo.
Hoje sei onde moras.
Vim no rasto do vento.
Nos jardins dos dias
gozei as pétalas oferecidas.
Não disseste onde ias,
deixaste promessas esquecidas.
No livro dos anos,
deixei páginas rasgadas,
não há índice de danos,
apenas folhas douradas.
Na berma do futuro
larguei as minhas mágoas.
Entre nós há um muro
que desvia as nossas águas.
No caminho de regresso
assinalei minha presença.
Vais descobrir o reverso
do sinal de pertença.
_____________
Pedro Arunca
2007/11/01

27/10/2007

Poema anorético

Era um poema tão hermético
que nem a alma se lhe via.
Com um título atlético
que, ainda mais, o reduzia.
De corpo tão esquelético,
não conseguia respirar.
As voltas foram tantas,
ficou zonzo a cambalear.
Nem o calor das mantas
o tirava do torpor.
Sem ponta por onde pegar.
Fiquei de mau humor.
Não o pude amparar.
Havia uma palavra ou outra
sujeita a tal compressão,
como a frase era rota,
não fazia oração.

As rimas andavam soltas
como as folhas do Outono.
Os versos davam voltas,
pareciam cão sem dono.
Osso duro de roer.
Não o lia de nenhum jeito.
Quem o haveria de ler?
Achá-lo-ia imperfeito.
As palavras estão caras,
mas não sou de poupar,

penduro-as nas varas
para o vento as levar…

___________
Pedro Arunca
2007-10-27

Deixa o teu coração florir

Pisaram os canteiros do teu jardim
Tanto trabalho deitado por terra
Que mal fizeram as flores?
Há quem declare guerras
Mas não ganhe nos amores

Sei que choras as rosas vermelhas
Tratadas com mil carinhos
Teu coração magoado
Também guarda espinhos
Ele merece de mais cuidado

Retira as pedras e as ervas daninhas
Revolve a terra com paixão
Choveu? O sol há-de vir
Solta e abre o teu coração

Deixa-o florir
_________

Pedro Arunca
2007/10/27

26/10/2007

Viajo com a minha guitarra

Viajo com a minha guitarra
Conto minha história numa canção
Vejo poesia na rua, no mar e na lua
A tudo a minha alma se agarra
Cresce uma hera no meu coração

Beijo o mundo com minhas mãos
Canto as palavras que te fazem feliz
Para me sentires basta me ouvires
Meus amigos são como irmãos
Faço desta terra o meu novo país

Sou um solitário viajante
Carrego comigo pouca bagagem

Em cada terra vi sua guerra
Esperas de mim um eterno amante
Sou real, não uma miragem

Sinto no peito uma dor
Sonho com um novo despertar
Sou homem novo que ama seu povo

De tanto amar, conheço o amor
Dá-me uma chave para eu ficar


(Poema dedicado ao meu amigo Helder.
Parabéns amigo! Para quando uma música com poema meu?
__________
Pedro Arunca
2007-10-26

21/10/2007

Caixas de histórias

Numa caixa de sapatos
guardo pedaços da vida:
cartas, postais e retratos.
Minha estrada percorrida.
Noutra caixa de cartão
escondo alguns poemas,
sairam da minha mão
e abordam vários temas.
Nas caixas pequeninas
juntei diversa tralha:
canetas grossas e finas
e mais o que lá calha.
Porta-chaves, calendários
e selos dos correios,
são os meus relicários.
Registos dos meus passeios.
Cada coisa tem uma história
com a sua referência.
Mais valor tem a memória
o tesouro da vivência.

19/10/2007

Na pesca


Pela Ponte, até à praia,
chego à ponta do esporão.
Muitas pedras, puxou o mar,
levam lapas e muito mexilhão
Ponho isco no anzol.
Lanço e espero pelo sinal.
Pica o peixe apressado,
puxa a bóia para baixo.
A ponteira fica dobrada,
pesco um sargo “palmeiro”.
Pois este já tem medida,
no balde preto é o primeiro.
Ponho mais chumbo no fio
para afundar depressa.
Prende a linha numa rocha.
Apanhei um ouriço!
Picam muito os seus espinhos,
pois já tive essa experiência.
Pego nele com cuidado,
quando crescer que apareça.
Na pesca não há profissões,
apenas “companheiros”.
Há sempre um cumprimento.
Cada um ocupa o seu espaço,
onde impera o respeito.
Preia-mar de calmaria.
Só um peixe eu apanhei.
Sopra o vento, do Espichel.
Passo a tarde para uma foto.
Põe-se o sol na Caparica.
_______

Pedro Arunca
2007-10-19

15/10/2007

A minha avó tinha um gato

A minha avó tinha um gato
que brincava no meu sapato.
Não gostava de sobremesa
mas cheirava de certeza.
Sempre que eu chegava,
ele me cumprimentava.
Dormia no meu colo
e gostava de consolo.
De orelhas em alerta,
despertava pela certa,
se alguma coisa ouvia.
Lá ele me fugia.
“Bicho, bicho” - chamava eu –
Acho que nunca me respondeu.
Quando à noite se escapava
o galinheiro acordava.
Os cães presos, num alvoroço,
de vigia a um osso
não paravam de ladrar.
Só o gato podia caçar.
Teriam, eles, inveja
da vida de Sua Alteza?
Por vezes não aparecia,
nem de noite nem dia.
Tinha eu pouca idade,
fiz-lhe uma maldade:
Parecia uma bala!
Maldita bengala!
Nunca mais apareceu.
Foi a mim que mais doeu.
À minha avó, nunca contei.
Jamais o esquecerei.
__________
Pedro Arunca
2007-10-15

06/10/2007

Outono

Abalaram as andorinhas
ficou o silêncio nos ninhos
Os tractores num vaivém
fazem novos caminhos
com destino aos lagares
Restam poucas vinhas
para ir rebuscar
as uvas de ninguém
As folhas esvoaçando
lembram aves feridas
os miúdos arrastando
fazem grandes corridas
até o fundo da ladeira
O monte de folhas secas
serve para brincadeira
A garotada se rebola
nas férias derradeiras
Já compraram a sacola
e largaram os calções
É em casa e na escola
que aprendem as lições
para enfrentarem o mundo
O rio corre ainda devagar
O tempo arrefece
As cabras com seus guizos
comem do pasto que as aquece
Os campos ficam lisos
Os fogos foram um inferno
Os pinheiros que sobraram
vão aquecer o inverno
dos filhos que os herdaram
________
Pedro Arunca
2007/10/06

27/09/2007

Amor em tempo de guerra (versão reduzida)

Teu busto fronteiriço
Meu corpo, trincheira
Trombeta estridente
Grito alvorado
Rio mortiço
Ponte de madeira

Nuvens escuras
Olhos de cinza

Teu rosto escondido
Minhas mãos, lanças
Trovão emergente
Raio dourado
Pombo ferido
Águas mansas

Chuva anunciada
Lágrimas negras

Tua boca fechada
Meu peito, brasão
Tempestade eminente
Luz prateada
Terra alagada
Sem chão

Vento suão
Afago quente

Teus olhos profundos
Meu coração galopante
Sinfonia tangente
Hino de paz
Dois mundos
Reino triunfante

Véu de estrelas
Diamantes suspensos

Teus braços em arco

Meu sorriso glorioso
Tambor presente
Seta que jaz
O trono é barco
Mar imperioso

Lua Nova
Espelho divino
_______
Pedro Arunca
2007/09/27

Amor em tempo de guerra

Vigio o teu busto fronteiriço
Do meu corpo faço trincheira
Toca a trombeta estridente
Eco de grito alvorado
Separa-nos um rio mortiço
e uma velha ponte de madeira

Manto de nuvens escuras
são olhos de cinza

Teu rosto sempre escondido
Ergo minhas mãos como lanças
Ouvimos trovão emergente
Cai um raio dourado
Há um pombo ferido
num regato de águas mansas

Tomba a chuva anunciada
são lágrimas negras

A tua boca mantém-se fechada
No meu peito cravo o brasão
Há uma tempestade eminente
Um brilho de luz prateada
A terra fica alagada
Sem chão

Acorda o vento suão
é afago quente

Teus olhos grandes e profundos
Meu coração parte galopante
Misteriosa sinfonia tangente
Soa a hino de paz
Encontro de dois mundos
Por um reino triunfante

Um véu de estrelas
São diamantes suspensos

Teus braços formam um arco
Ofereço meu sorriso glorioso
Há um tambor presente
Onde a seta jaz
Nosso trono é um barco
Neste mar imperioso

Lua Nova
Espelho divino

_______

Pedro Arunca
2007/09/27

22/09/2007

Fado para ti

Já conheço todas as ruas
do bairro onde tu moras
Perguntei por ti
Ninguém dá notícias tuas
Vi passar todas as horas
Não sei de ti
Muitas tardes nos cafés
lendo todos os jornais
Pensei em ti
Aprendi a ler as marés
nos muros do cais
Esperei por ti
Falei com muita gente
que se cruzou comigo
Falei de ti
Quem ama, sabe e sente
a dor de um amigo
Chorei por ti
Fui bater à tua janela
Ninguém me respondeu
Chamei por ti
Fiquei de sentinela
Tua porta não mexeu
Gritei por ti
As paixões deixam danos
saudades e dissabores
Rezei por ti
Já passaram muitos anos
Vivi outros amores
Amei por ti
_________

Pedro Arunca
2007/09/22

17/08/2007

O mar

Céu invertido
De estrelas revestido
Lua dominante
Sina de amante
Elo grandioso
Íman poderoso
A ira e a calma
Espelho da alma
Na cor a emoção:
revolta ou paixão
Água de mil rios
Flores e navios
Palco de guerras
Move terras
Constrói e devasta
Envolve e arrasta
Leva para o fundo:
a gente e o mundo
Universo inspirador
de poesia e amor
Reino maravilhoso
Neptuno misterioso

______
Pedro Arunca
2007/08/17